Alessandra Campos
Especial para a Folha2
Não parece, mas Toquinho gosta de ser audacioso. Em 1997, ele foi o primeiro cantor brasileiro a produzir um CD-ROM. Agora, coloca em prática um projeto ainda mais arrojado. Aos 53 anos, Toquinho volta ao grupo dos pioneiros e lança a história de sua vida em videodisco digital (digital video disc – DVD) – espécie de aparelho de videocassete, só que digital, que garante imagem mais nítida e melhor qualidade de som. O DVD sai este mês junto com o novo CD ‘‘Sinal Aberto’’, produzido em parceria com o sambista carioca Paulinho da Viola.
O primeiro DVD lançado no Brasil terá cerca de duas horas de duração e será quase uma biografia de Toquinho. A maioria das imagens foi gravada pelo próprio pai do cantor. ‘‘Este disco mostra a minha vida de uma forma bem acessível e verdadeira. Há cenas em que eu apareço com apenas dois anos de idade. Andando, brincando, minha adolescência. Tudo está ali graças ao meu pai que sempre me filmava’’, recorda. O disco mostra também várias apresentações do cantor em programas de televisão.
O novo projeto de Toquinho está sendo produzido por uma empresa norte-americana, a Kau Laser. Segundo ele, o investimento é de aproximadamente US$ 100 mil. ‘‘A expectativa de venda no Brasil é muito pequena porque são poucos os brasileiros que têm aparelho de DVD. Eu mesmo ainda não tenho um. Esperamos vender mais na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, onde meu trabalho também será lançado e onde o uso desse equipamento já é comum’’, afirma. Depois de Toquinho, é a vez de outro cantor brasileiro lançar um DVD no mercado nacional. ‘‘O Caetano Veloso já está produzindo um’’, avisa.
Ele sabe que o Brasil não está preparado para receber uma tecnologia de ponta como o DVD, mesmo assim aposta no pioneirismo para lançar moda. ‘‘Como é que se pode esperar que o País esteja preparado se não sair o primeiro?’’, argumenta. ‘‘Hoje o mundo é tão pequeno com a globalização que, no máximo, em dois anos o DVD estará substituindo o arcaico videocassete’’, prevê.
Mas, por enquanto, a maioria dos brasileiros ainda não sabe o que é um digital video disc. Por isso, Toquinho prepara uma estratégia de marketing para apresentar a nova tecnologia ao País. ‘‘Vou aparecer em todos os programas de tevê para divulgar meu DVD e fazer uma promoção muito forte nos meios de comunicação. Por ser o primeiro, meu disco deverá ser muito explorado pela mídia’’, torce.
Enquanto o DVD não chega ao mercado, Antonio Pecci Filho – o Toquinho – trabalha na divulgação de seu novo CD, que estará nas lojas de discos até o final do mês. ‘‘Sinal Aberto’’, citação inversa do clássico de Paulinho da Viola ‘‘Sinal Fechado’’ vencedor do Festival da Música Popular Brasileira em 1969, traz no repertório um samba novo, ‘‘Caso Encerrado’’, resultado da parceria com Paulinho, além de antigos sucessos da dupla.
Há 34 anos na estrada, Toquinho gravou mais de 300 músicas. Dividiu a autoria delas com grandes nomes da Música Popular Brasileira, como Tom Jobim e Chico Buarque. Mas, foi com Vinícius de Moraes que a parceria durou mais tempo – quase 11 anos – e rendeu mais trabalho – cerca de mil shows pelo Brasil, pela América Latina e Europa, 25 LPs gravados e mais de 120 composições. ‘‘Conheci o Vinícius quando eu tinha de 23 para 24 anos e trabalhei com ele até os 34 anos. O Vinícius nunca trabalhou tanto na vida como no tempo em que compusemos juntos’’, lembra.
Sem falsa modéstia, Toquinho confessa que se sente um privilegiado por ter sido parceiro de Vinícius por tantos anos. Entre outras coisas, o poeta ensinou-lhe a cultivar o público infantil e a fazer letras e canções. ‘‘Ele era muito responsável, ao contrário do que todo mundo pensa, e eu muito imaturo. Vinícius me fez entrar na linha, me mostrou o time das coisas. Ele sabia quando havia exageros, fazia a canção certa com a letra certa e tinha uma sensibilidade inigualável’’, declara.
Para Toquinho, a parceria com Vinícius foi perfeita e completa. ‘‘Ele me deu know-how de vida, o endosso de Vinícius de Moraes. Eu dei pra ele o que ele já não tinha mais. Força, vigor, composição, violão. Foi uma parceria recheada de muita vida e de muito uísque. Ele bebia à beça...’’

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