Biografia desvenda a vida do compositor Richard Strauss
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de agosto de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 01 (AE) - Quando os soldados americanos, ao fim da guerra, chegaram até o seu chalé, em Garmisch, Richard Strauss estava no portão para recebê-los cordialmente, como um bom velhinho alpino. Levou-os para dentro de casa e, após servir-lhes café, foi surpreendido com a pergunta de um pracinha que, apontando um busto de Beethoven, lhe perguntou se aquele era Hitler. O compositor concordou com a cabeça. Em breve, o bom humor seria substituído pela amargura de ter de responder a perguntas mais incisivas sobre sua complexa relação com o fuhrer (que o exaltou por anos como o antagonista do decadentismo de Schoenberg) e o Terceiro Reich. A morte, em 1949, salvou-o de maiores embaraços.
O véu de Salomé que cobre a sua verdade, mesmo após 50 anos, ainda não foi de todo retirado. Ainda assim, uma boa forma de conhecer melhor o criador de "O Cavaleiro da Rosa" é ler "Richard Strauss, Man, Musician and Enigma", de Michael Kennedy (Cambridge, 472 págs., R$ 101,25, tel. 0XX11-287-6959), um detalhado estudo da vida do compositor e, em especial, da sua suposta colaboração com os nazistas, um estigma que maculou a genialidade de sua obra por anos. Embora Kennedy seja abertamente um advogado de defesa do músico, é impossível não se evitar a sensação de que Strauss, um nacionalista ferrenho, pouco tinha a opor à ditadura de Hitler e não usou sua influência para ajudar músicos judeus (como o fez Furtwaengler).
Mas isso não nos deve tirar o prazer de conhecer esse burguês notável, capaz de transformar uma briga conjugal com a mulher, a temível Pauline, num simulacro de "Tristão e Isolda"
a ópera "Intermezzo". Também é notável a consciência que tinha de seu oportunismo criativo. "Tiros certos como os que dei no dueto de "Arabella" ou no trio de "O Cavaleiro da Rosa" ensinam a um cavalheiro de 70 anos como eu que um dos pontos fortes de um artista é a sua capacidade de criar kitsch"
escreveu a Stefan Zweig (libretista judeu que lhe foi tirado pelos nazistas e que veio morrer no Brasil). Era um safado convicto.
E usou a herança de Wagner para tanto. Pois enquanto o mago de Bayreuth usava a arte e todo o seu aparato para expressar idéias, Strauss mobilizava multidões de músicos apenas pelo seu prazer antiquado de pôr notas no papel. Que, longe de explorar regiões espirituais, se destinavam a divertir o público. Apenas no fim, ousou ir mais longe, pensando na morte nas "Quatro Últimas Canções", o seu adeus teatral, e no fim da sua civilização em "Metamorfoses".
Esse Richard Strauss está sem dúvida no livro de Kennedy
imperfeito, mas ainda assim, obrigatório. Não, porém, o irado regente que veio, no início do século, ao Brasil, para uma série de concertos, e de onde escreveu para Hoffmanstahl um retrato ácido dos brasileiros, "que prometem mundos e fundos, mas pouco fazem para cumprir o mínimo acordado".


