Billy Graham, o pregador
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 1998
Marcos Cesar Gouvea 
Em outubro de 1978 o evangelista norte-americano Billy Graham percorreu as seis principais cidades da Polônia, pregando em púlpitos de várias denominações religiosas (católica romana, batista, reformada, luterana e outras) a milhares de pessoas. O país estava em plena guerra ideológica, que culminaria com a queda da burocracia comunista em todo o Leste. Ao chegar a Cracóvia, Graham recebeu permissão para pregar no templo barroco da Igreja de Santa Ana. A permissão foi concedida pelo cardeal Karol Wojtyla, com quem deveria tomar chá conforme a programação.
O chá foi adiado. Quando o avião da equipe do evangelista pousou em Varsóvia, um avião conduzindo Karol Wojtyla se encontrava no final da pista, esperando para decolar para Roma. Wojtyla seguia para o conclave que deveria eleger o sucessor do sorridente Albino Luciani, o papa João Paulo I. Como se sabe, o cardeal polonês não usaria o bilhete de volta.
De qualquer forma Graham fez a sua cruzada pela Polônia sedenta de liberdade. A suntuosa Igreja de Santa Ana ficou lotada, inclusive com a presença de alemães orientais, que vieram pedir ao missionário que visitasse o seu país. O papel de Karol Wojtyla nos dez anos (1979-1989) que abalaram e mudaram o mundo já é sobejamente conhecido, principalmente após a excelente biografia escrita por Carl Bernstein e Marco Politi. O papel de Billy Graham nem tanto. Talvez esse papel nem venha a ser conhecido, mas alguma coisa, como a narrativa acima, pode ser vista na sua autobiografia, lançada em julho pela editora United Press, com tradução de Maria Emília de Oliveira.
ReproduçãoO pregador Billy Graham com o Papa João Paulo II, no Vaticano, em 1993A autobiografia do evangelista batista, Just As I Am, vendeu mais de um milhão de cópias em sua versão capa dura nos EUA. A versão brochura já vendeu 900 mil cópias. O livro permaneceu seis semanas na lista de best sellers de não-ficção do The New York Times, alcançando no fim de maio de 97 a posição número 1. Também no ano passado, a revista Christiany Today escolheu a obra como o livro do ano do mercado editorial evangélico americano.
No Brasil, Billy Graham - Uma Autobiografia, 736 páginas, tem tiragem inicial de dez mil exemplares de capa dura e está colocado a R$ 32,00 não só nas livrarias evangélicas, mas também nas seculares, segundo a editora.
Em nosso País, o mundo chamado Evangélico não é muito compreendido. Está na mídia todo o dia, mas é analisado de forma superficial. Um exemplo é o equívoco de se colocar num mesmo saco os parlamentares oriundos das igrejas protestantes (tradicionais ou não), naquilo que seria a chamada bancada evangélica, que acabou desmoralizada depois de muita picaretagem e fisiologismo por parte de vários deles.
Já houve um tempo que a melhor fórmula para ser cristão se resumia no esquecer os porquês. Hoje, compreender o cristianismo exige respostas para muitas perguntas, algumas delas estranhas: O que é ser cristão? Qual a função da comunhão regular em comunidade (igreja)? Quais são as responsabilidades que tudo isso implica? O que é conversão? O que é nascer de novo? O que é ser cristão nesta ou naquela denominação? O que Cristo oferece? O que é ecumenismo? E muitas outras, provocadas por estas.
A autobiografia de Graham analisa, evidentemente, estas questões, não com a profundidade de um Karl Barth. Mas sempre volta para a simplicidade, que parece ter sido o segredo do seu ministério vitorioso: Meu único propósito na vida é ajudar pessoas a chegar a um relacionamento pessoal com Deus, o que, acredito, vem por meio de conhecer a Cristo. E conhecer a Cristo implica, em ato contínuo, tomar a Bíblia como manual prático, ético, moral e espiritual para a vida. Mas e aqueles que não têm uma Bíblia?
Esse suprimento, da mensagem e palavra de Deus através de Cristo, é a grande obra de Billy Graham e suas cruzadas durante as últimas quatro décadas. Segundo sua equipe, o evangelista pregou o Evangelho publicamente, ao vivo, a mais pessoas do que nenhum outro na história: acima de 210 milhões de indivíduos em mais de 185 países e territórios. Outras centenas de milhões foram alcançados por meio da TV, vídeos e filmes, além de extensa bibliografia. E ele, que falou na Internet pela primeira vez em 1993, convidado pela América Online e a revista Time, aponta as enormes perspectivas com os novos meios de comunicação. Deus nos tem fornecido novas ferramentas (...) e cada uma delas tem exercido papel importante na expansão do nosso ministério.
A autobiografia tende a ser condescendente com o autor. Mas é atraente não só para protestantes (tradicionais ou não), mas também para crentes que professam outras religiões, incluindo aí agnósticos e ateus. A introdução do livro já antecipa, para todos, a rica aventura de Graham neste mundo nos 42 anos que separam a sua relação com o presidente norte-americano Harry Trumam, em 1950, e com o líder norte-coreano Kim Il Sung, em (1992-94). Por aquele foi chamado de impostor. Sung, depois de uma visita de Graham à Coréia do Norte em 1992, recebeu o evangelista para uma segunda visita em 1994 em Pyongyang com um abraço é o comentário: Considero ter o senhor como um amigo nos EUA. O senhor é considerado membro de nossa família. Na ocasião, Graham era portador de mensagens de George Bush e de João Paulo II ao líder norte-coreano. E voltava com respostas. Ou não.
O livro de Graham pode ser cansativo no início, quando está em pauta a infância do pregador numa fazenda de Charlotte, na Carolina do Norte; sua conversão na juventude; o chamado para pregar; os estudos em um seminário da Flórida. Por outro lado, a história de Ruth Bell, a esposa de Graham, é interessantíssima. Ela é filha de um médico missionário presbiteriano e nasceu na cidade de Tsingkiangpu, província de Kiangsu do Norte, na China, onde passou sua infância e os primeiros anos da adolescência. Ela deixou a China em 1933 na ocupação japonesa e só voltou em 1988, sob o regime reformista de Deng Xiaoping. O centro médico de Tsingkiangpu foi fundado em 1887 pelo Dr. Absalom Sydenstricker e esposa, pais da escritora Pearl Buck. A visita do casal Graham ao complexo hospitalar presbiteriano foi o ponto alto da visita à China em 1988.
O livro ganha muito em interesse quando o evangelista conta episódios envolvendo a política norte-americana e as relações internacionais. Ele foi chamado, por exemplo, para passar a noite com George e Bárbara Bush na noite que antecedeu a Guerra do Golfo. Mas soube transitar em meio às armadilhas dos círculos do poder com Dwight Eisenhower, John Kennedy, Lyndon Johnson, Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter, Ronald Reagan, George Bush e Bill Clinton. Pregou em todos os países do Leste Europeu antes da queda da burocracia comunista. De Praga a Novosibirsk, na Sibéria. De Leningrado a Bucareste. E em todos os continentes, até os confins da Terra. Autoridades morais vieram e foram, mas Graham suportou e manteve sua honra intacta.
Aos 80 anos, Billy Graham luta contra o mal de Parkinson. Médicos limitaram sua atividade até este ano, 1998. Em 1975, quando ele já tinha dificuldades para estar no púlpito, a revista Time perguntou se ele não seria o último dos evangelistas da grande ceifa? Depois que D.L. Moody acabou, eles disseram a mesma coisa. E depois de Billy Sunday disseram a mesma coisa, e depois que eu terminar, dirão a mesma coisa. Mas Deus levantará diferentes homens que farão muito melhor do que eu. A Time concluiu que, se assim for, isto será um milagre.
A propósito, o chá com o Karol Wojtyla se realizou em janeiro de 1979, no Vaticano. Diz Billy Graham que o papa foi muito cordial e mostrou muito interesse no seu ministério, principalmente na Polônia.Após alguns minutos, tive a impressão de que nos conhecíamos havia muitos anos. Depois de uma troca de presentes, ambos recordaram juntos, lembra Graham em seu livro, as palavras de Jesus registradas em João 10.14, 16: Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem... Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las.
Billy Graham vai fazer 80 anos em 18 de novembro. João Paulo II tem 78 anos. O mundo cristão ocidental se preocupa com a partida de ambos e se pergunta sobre quem virá suprir as lacunas. A preocupação procede, mas nem tanto, pois o Cristianismo não existiria sem milagres.ReproduçãoBilly Graham: Meu único propósito na vida é ajudar pessoas a chegar a um relacionamento pessoal com Deus, o que, acredito, vem por meio de conhecer a Cristo


