Bill Laswell é gênio?
Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha2
Antes que alguém acrescente a segunda e previsível pergunta, admito que o pretexto para a primeira é, no momento, bem esquálido: Bill Laswell - baixista, compositor, arranjador e produtor norte-americano (está, portanto, respondida a segunda pergunta: quem é ele?) - assina a produção de duas faixas do mais recente CD do grupo O Rappa, Lado B, Lado A. São elas Na Palma da Mão e a faixa-título, ambas saturadas de scratches. O próprio Laswell faz solo dub de baixo e (quem imaginaria ouvir isso no Rappa?) inclui até um violino na produção. O resultado mostra pelo menos três coisas: que o Rappa está bem informado e é esperto (no exterior, o nome de Bill Laswell nos créditos de um disco confere prestígio e vale como uma recomendação), que o grupo brasileiro nunca teve uma produção tão caprichada, moderna e internacional, e que, apesar disso, um produtor, ainda que seja um produtor genial, não é mágico, nem alquimista. Ou seja, não é capaz de converter latão em ouro. Mas bem que ele tenta...
Seja como for, o disco já vale por chamar a atenção para este extraordinário e prolífico músico de meia-idade, em cujo currículo como produtor figuram álbuns de Herbie Hancock, Afrika Bambaata, Yellowman, Manu Dibango, Ramones, Iggy Pop, Ginger Baker, Public Image Ltd., Jah Woble, Gil-Scott Heron, Sly & Robbie, Swans, Foday Musa Suso, Last Poets, Arcana, Buckethead, Bootsy Collins, Stevie Salas, George Clinton, Toure Kunda e muitos outros artistas e bandas. Ou seja, Laswell produziu jazz, reggae, funk, hip hop, punk rock, post rock, world music, ambient, experimental ... E, antes de comparecer no CD do Rappa, produziu, em 1992, o álbum Bahia Black - Ritual Beating System, juntando Carlinhos Brown e o grupo Olodum a músicos de jazz como Wayne Shorter, Herbie Hancock e Bernie Worrell.
A mesma diversidade está presente na extensa obra de Laswell como baixista e compositor, cuja qualidade deixa-me tentado a responder afirmativamente à pergunta formulada no título deste artigo. Ou, se ele não for um gênio musical, está bem próximo disso, em especial em seus trabalhos nas áreas fusion e ambient (sem receio de dizer bobagem, afirmo que Laswell é o mais importante compositor de ambient music depois de Brian Eno, considerado o criador do gênero com seu álbum Music for Airports, de 78). Porém, melhor deixar que o leitor/ouvinte tire as suas próprias conclusões, e, assim limito-me a auxiliá-lo, sugerindo alguns dentre as dezenas de títulos da discografia de Laswell (iniciada em 79), lançados ou reeditados nos últimos anos (portanto, com alguma sorte, ainda encontráveis em catálogos de importados).
- Com o Material (um dos vários grupos criados por Laswell e, na minha opinião, o melhor deles): Hallucination Engine (94), que conta com a participação de cerca de 20 músicos de primeira (entre eles, o saxofonista Wayne Shorter, o violinista Shankar, o guitarrista Nicky Skopelitis, o percussionista Trilok Gurtu e o baixista Jonas Hellborg), e Seven Souls, mais jazzístico e com uma formação menor. Tanto Hallucination (disco que apresenta a fusão ambient-jazz-funk-dub) quanto Seven Souls contam com a participação muito especial do escritor William Burroughs, recitando alguns de seus próprios textos.
- Trabalhos solo: Baselines (84), Silent Record: Dub System One(95), Sacred System Chapter One (96) e Oscillations 1 e 2 (estes, incursões do músico no território do drumnbass).
- Com Pete Nanlook (pseudônimo artístico do alemão Peter Kuhlmann): as trilogias Psychonavigation (em especial o primeiro volume, um dos discos de música eletrônica mais climáticos desta década) e Outland, e o volume 4 da série The Dark Side of the Moog (com excelentes exemplos de música eletrônica para dançar e, ao mesmo tempo, música inteligente - o que é uma combinação muito rara).
- Com o PainKiller (trio de jazz hardcore formado pelo saxofonista John Zorn, Laswell e o baterista psychoambient Mick Harris): Collected Works (compilação lançada no ano passado pela gravadora Tzadik: quatro CDs com gravações realizadas entre 91 e 94).
- Com Massacre (Fred Frith, BL e Fred Maher) : Killing Time (lançado originalmente em vinil, na França, em 82, ganhou em 98 edição em CD).
- Com Percy Howard, Charles Hayward e Fred Frith: Meridien.
- Com o músico japonês (radicado em Nova York) Tetsu Inoue: Cyamatic Scan (95) (outro grande disco de ambient music).
- Com o guitarrista de vanguarda Buckethead: Dreamatorium (94) (cinco faixas sombrias e experimentais).
Todos os CDs, com exceção de Meridien (que saiu pelo selo italiano Materiali Sonori), foram lançados nos EUA. Cada um deles justifica o preço pago, hoje em dia, por um disco importado e vale como um passaporte para uma experiência musical com altos teores de criatividade. Procure conhecer.





