BIG BROTHER BRASIL - Quando a propaganda passa de MANSINHO
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2008
Bruna Fioreti<br> Agência Estado 
Os caçadores de mensagens ocultas se deliciaram quando o participante do Big Brother Brasil 8, Rafinha, ficou intrigado com os papéis de parede da cozinha da casa, na semana passada. ''Fico olhando para esses desenhos (círculos coloridos) e aí penso: Será que querem dizer alguma coisa?'' A percepção de Rafinha poderia indicar que haveria no reality show mensagens subliminares, conteúdos presentes mas não captados pela razão humana. O assunto não foi para frente e tudo só ficou no campo da especulação.
O criador da ONG Mensagem Subliminar, José Vicente Dias, não denunciou a emissora pelos supostos desenhos estranhos, mas ficou instigado pelo comentário do ''brother''. Treinado para encontrar mensagens escondidas em propagandas e programas de TV há mais de 15 anos, dessa vez não fez como na edição passada do BBB. Dias, escolado no assunto, já denunciou a prática uma vez, mas perdeu o caso para a Globo, que rebate as alegações do caçador de ocultismos dizendo usar inspirações meramente artísticas para os seus cenários do Big Brother.
Em 2007, o caça-mensagens viu elementos estranhos no ''confessionário''. ''Havia imagens que simulavam pessoas nuas, de maneira erótica. Aquilo aparecia no pano de fundo toda vez que um participante estava naquele cenário.''
Primeiro, Dias informou ao Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), depois procurou a Globo e ainda recorreu ao Ministério Público para dizer que o Big Brother trazia mensagens subliminares. Para ''crescer'' a denúncia, argumentou que o programa incentivava o tabagismo e o alcoolismo. Ao final de alguns meses, não comprovou judicialmente o que, em sua visão, estava claro: o BBB era uma má influência.
O poder das mensagens subliminares sobre o comportamento humano é contestado por especialistas. Como explica Kentaro Mori, criador do site Ceticismo Aberto, a percepção ''de estímulos breves ou tênues que podem não ser notados conscientemente de forma plena'' realmente existe. Porém, seus efeitos são limitados a segundos.
Ainda assim, alguns entendimentos judiciais reconheceram o ''perigo'' dos conteúdos ocultos. A pulga atrás da orelha de Vicente Dias ao ouvir o sussurro no ouvido de Zeca Pagodinho em uma propaganda da cerveja Nova Skin, de 2003, por exemplo, rendeu a descoberta de uma mensagem nada polida. ''A pessoa dizia no ouvido do cantor algo como ''vê se tu bebe isso aí agora, cara, ou pego essa garrafa e enfio no seu r...'' No comercial, isso era apenas um ruído mas, após a denúncia, ele saiu do ar.
A lei brasileira não versa sobre o uso de mensagem subliminar. A principal ''arma'' de seus pesquisadores é o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe anúncios dissimulados. O canal MTV foi condenado por veicular, em 2002, uma vinheta suspeita: ''Encontramos 180 frames (quadros) sadomasoquistas escondidos numa vinheta de segundos.'' A MTV negou a intenção de colocar as imagens, mas foi condenada por danos morais.
Outro exemplo foi o filme ''Madagascar'', proibido nos cinemas de Joinville (SC), há dois anos. O juiz Alexandre Rosa acatou a denúncia de que ficava subentendido o estímulo ao consumo de ecstasy. A animação foi exibida na cidade com censura para menores de 18 anos.
Segundo o autor de ''Propaganda Subliminar Multimídia'' (Summus, 2006), Flávio Calazans, há confusão sobre o conceito de subliminar. ''Alguma (confusão) é criada por publicitários, outra por grupos pseudo-religiosos interessados em extorquir comunidades carentes com ameaças apocalípticas de ''subliminares de Satã'' em músicas e desenhos.''
Diante do desencontro de informações, o espectador pode se prevenir do mal subliminar? Para Calazans sim, pela leitura constante do tema. Para Vicente Dias, não. ''Por estar abaixo do limiar da razão, é impossível se defender.'' Para o cético Kentaro Mori, o problema é confundir subliminar com conspiração. ''Temos muito mais a temer de mensagens claras do que de subliminares.''


