Bienal investe na "clareza pedagógica"
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segunda-feira, 31 de maio de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 01 (AE) - Ivo Mesquita, que acaba de ser nomeado curador da 25ª Bienal de São Paulo, tem um longo caminho pela frente até definir a cara que terá a próxima edição da mais importante mostra da América Latina. Mesmo sem querer adiantar qual será o provável tema ou citar o nome de artistas que gostaria de convidar, ele já tem algumas metas que pretende cumprir durante a exposição. A primeira preocupação do curador será com o lado educacional. "Posso dizer que qualquer que venha a ser o projeto, a curadoria adotará uma linha bastante rígida que permita uma clareza pedagógica", explica ele, dizendo que dará grande importância a atividades paralelas como conferências, publicações, etc.
O próprio Mesquita deve muito à tradição da Bienal de investir muito na formação de jovens e, consequentemente, de um público esteticamente alfabetizado. Ele começou a ser monitor das Bienais com 17 anos, trabalhando nas edições de 1969 e 1971. Na época nem existia a figura atual do curador todo-poderoso. Quem respondia pela mostra era, na maioria das vezes, um conselho de críticos e comissários.
Depois dessas primeiras experiências como monitor, Mesquita continuou na órbita da Bienal - mesmo tendo estudado jornalismo -, trabalhando na instituição de 80 a 88, como coordenador do arquivo histórico e assessor cultural. Nesse período viu a montagem de algumas das mais ilustres Bienais, com curadorias de Walter Zanini e depois de Sheila Leirner. O evento também foi objeto de sua pesquisa de mestrado, sob o tema Bienal e a Imprensa.
A pesquisa não foi concluída e a idéia é publicá-la na 25ª edição, que foi postergada para o ano 2001 - se o calendário fosse seguido à risca ela deveria ocorrer no ano que vem - para evitar conflito de datas com a Bienal dos 500 anos (em abril) e explorar melhor o 50º aniversário da mostra, instituída em 1951 por Ciccillo Mattarazzo.
O período exato de realização da mostra ainda está indefinido, pois é necessário adaptar-se a agenda de outros eventos internacionais importantes, como a Bienal de Veneza. Outra idéia de Mesquita é ampliar um pouco o prazo de realização da mostra. "A última Bienal ficou em cartaz apenas 75 dias, quando o desejável seria prolongá-la por 90 ou 100 dias."
Essa visão histórica dá à Mesquita uma real dimensão da evolução pela qual o evento passou em seus 50 anos de existência e a importância de se descobrir novos rumos para a mostra. "A Bienal naquele tempo era algo doméstico, comparado ao que é hoje", lembra. Além de os custos (em 69 a mostra custava US$ 500 mil e a última foi orçada em US$ 12 milhões) serem infinitamente menores, as obras se resumiam a pintura, escultura
desenho e fotografia. "As coisas começaram a complicar depois de 70", diz.
E se depender dos primeiros esboços para a 25ª edição, elas se complicarão ainda mais, já que a idéia dos organizadores é dar um caráter futurista ao evento. O tema ainda não está definido, mas ele dará ênfase à produção artística que abre perspectivas para o novo século.
Ao contrário de alguns críticos, que desenvolvem um modo de pensar e um projeto de pesquisa ao longo de sua vida, ele se define como um curador que sempre parte da situação que lhe é oferecida. E nada mais tentador do que lidar com o futuro em pleno 2001. A abordagem que Mesquita pretende dar ao tema é bastante provocativa: "Vamos pensar nessa idéia do Brasil como o país do futuro, esse mito que é apresentado como uma mágica que não dependeria da gente", explica ele, lembrando que questões como o fato de um a cada cinco paulistanos estar desempregado tem de fazer parte da discussão temática.
Quando fala em futuro, Mesquita não está apenas pensando em novas mídias ou suportes, mas em criar um público que seja tocado pela arte contemporânea. Segundo ele, não nos podemos esquecer de que "quando a Bienal foi fundada, estavam criando um público para uma exposição de arte moderna, tentando explicar ao público o que era cubismo, expressionismo abstrato, pop art" e que hoje a situação é completamente diversa. É necessário encontrar meios de atrair as mesmas pessoas que frequentam o Mercado Mundo Mix ou um baile funk. Não está apostando tanto na idéia de descobrir novos talentos. "Existem 35 Bienais ao redor do mundo e todas querem descobrir o novo", brinca ele. "O objetivo é oferecer uma experiência que possa abrir novas possibilidades de conhecimento sobre as pessoas e seu mundo, algo que possa transformar suas vidas."
Uma das chaves seria uma abordagem interdisciplinar da arte, explorando as fronteiras cada vez mais tênues entre arte e cinema, literatura, design, arquitetura ou vídeo. A Bienal pode ter plantas arquitetônica, pinturas ou roupas. "Tem de ser bonito, ter um apelo visual, tem de falar para o olho", diz. "A Bienal tem de ser espetacular porque vivemos a cultura do espetáculo", sintetiza.
Como um dos curadores do segmento Roteiros da 24ª Bienal de São Paulo - aquele dedicado aos Estados Unidos e Canadá -, Mesquita considera que a última edição do evento alcançou um grande objetivo: reafirmar a inserção internacional da arte brasileira e de uma paradigma crítico produzido no Brasil. Provas disso são o convite feito ao curador da 24ª Bienal, Paulo Herkenhoff, para integrar o núcleo de curadoria de pintura e escultura do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e o fato de que atualmente são raras as exposições coletivas que não tenham um artista brasileiro em sua lista de convidados. Há anos Mesquita acompanha de perto essa afirmação cosmopolita da arte brasileira, já que viveu os últimos 11 anos nos Estados Unidos e Canadá.
Mas ele pretende cunhar um novo modelo para a mostra. Um primeiro projeto levará alguns meses para ser formatado - pois Mesquita tem compromissos internacionais é só assume a Bienal em tempo integral, em agosto -, mas já tem algumas idéias. As representações por região (a exemplo de Roteiros) podem continuar, mas sem uma regionalização tão explícita. Quanto às representações nacionais, deve ser intensificado o esforço para integrá-las cada vez mais à exposição central.
A própria indicação que fez para a Bienal de Veneza, mostra que abre suas portas no dia 9, revela uma preocupação em ampliar a visão apresentada na Itália sobre a arte brasileira. Nelson Leirner e Iran do Espírito Santo não ocuparão o pavilhão do Brasil apenas por serem artistas destacados de duas gerações completamente diferentes, mas por representarem viéses alternativos à obra de Hélio Oiticica e Lígia Clark, rompendo "a visão acomodada que se está estabelecendo de que todo mundo no Brasil é filhote deles."


