Bienal Internacional e eventos paralelos
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terça-feira, 19 de março de 2002
Rubens Pileggi Especial para a Folha2 
No próximo sábado, começa em São Paulo um dos maiores eventos artísticos do mundo. A Bienal Internacional é considerada uma das três mostras mais importantes de arte do circuito e neste ano vem com o tema Iconografias Metropolitanas, com apresentação do trabalho de 190 artistas de 70 países, discutindo a questão das cidades e a realidade das metrópoles nos dias de hoje. Além das obras expostas no pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, é possível ver algumas obras criadas especialmente para a internet, podendo acessá-las pelo site www.bienalsaopaulo.org.br.
São Paulo está com a agenda lotada para antes e durante a Bienal.
Foi inaugurado também o Arte Cidade 4, que é um evento que coloca em questão justamente a idéia de espaço público urbano como espaço de intervenção artística. Várias galerias também estarão com sua programação voltada ao público da Bienal.
Um dos vários programas que chama atenção é uma Série de encontros com curadores no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que ocorrerá de hoje a sábado. No texto de chamada está escrito: considerando-se a proposta de diálogo e a presença de um público profissional, as palestras serão realizadas em inglês e sem tradução simultânea. É esse o ponto!
Primeiro porque fazer uma palestra em inglês, no Brasil, para brasileiros, com a justificativa de profissionalizar o evento é uma atitude não muito simpática. Mostra um certo ar discriminatório, elitista e anti-profissional, na medida em que a profissionalização seria, justamente, contratar um tradutor, o que seria mais simples e justo para a ocasião. Quer dizer, só quem tem inglês, que fala a língua dominante no planeta é que pode participar das palestras dos Donos da Arte, a saber, os curadores profissionais.
Se a questão contemporânea tem um acerto de contas para fazer com a História, justamente é a correção desses ismos que acabaram tirando a arte do caminho das pessoas comuns, alheias ao artistiquês do circuito artístico, que se transforma em mais uma matéria para especialistas, como fazem os economistas com seu idioma impossível de ser decifrado, mas que, na prática, afeta a vida de todos nós. É engraçado, porque eles se parecem com profetas com olhos voltados para o passado. Só conseguem compreender a situação depois que ela passou. Depois que países são levados à bancarrota. Em inglês, of course.
Nesse sentido, é possível fazer uma crítica à curadoria profissional porque ela se põe acima da criação do pensamento artístico e perde o acontecimento no momento em que ele está se dando.
Isso aqui é Brasil. Estamos falando de arte. Isto é, será que os organizadores deste evento não percebem que repetem a velha submissão aos conceitos de afirmação de nossa identidade, justamente contra nossa identidade? Já dizia Paulo Herkenhoff que a curadoria é um exercício de conhecimento e não de poder. E isso tem de ser levado em consideração.
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