Bienal Internacional do Livro anima mercado editorial
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 14 (AE) - O mercado editorial começa a esquentar os motores para a abertura da maior feira de livros do País, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que será realizada entre 28 de abril e 7 de maio. Em sua 16.ª edição, o evento voltará a ocupar os três pavilhões do Expo Center Norte. Cerca de 800 expositores nacionais e estrangeiros vão participar da feira. Eles ocuparão 43 mil metros quadrados, onde serão lançadas mais de mil obras.
A grande atração da feira deste ano será a possível presença de três convidados ilustres e ganhadores de prêmios Nobel: o escritor alemão Gunther Grass, o sul-africano Nelson Mandela e o bispo timorense Ximenes Belo. A vinda dos três depende ainda das editoras e de pequenos acertos com a Câmara Brasileira do Livro (CBL), que vai dividir a organização da Bienal 2000 com a Fagga Eventos. Caso venham ao Brasil, o três vão participar do Salão de Idéias, outra novidade da feira.
O salão será um conjunto de eventos diários e abertos ao público reunindo grandes nomes da literatura nacional e internacional. A idéia é promover uma reflexão sobre a cultura e discutir os rumos do mercado editorial. Entre os nomes confirmados estão o norte-americano Richard Bach e ainda Leonardo Boff, Márcio Souza, Marcelo Rubens Paiva, Haroldo e Augusto de Campos, Ignácio de Loyola Brandão, José Mindlin, João Ubaldo Ribeiro e Paulo Coelho. A música estará representada no salão com o baiano Gilberto Gil. Homenagens - Assim como nas edições anteriores, a bienal vai homenagear nomes relevantes da literatura nacional. Este ano, os escolhidos foram a escritora Lygia Fagundes Telles - que vai lançar "Invenção e Memória" (Rocco) - e o poeta João Cabral de Melo Neto, morto ano passado. Além disso, será entregue, durante a feira, o Prêmio Jabuti de Literatura para os autores das 45 melhores obras do ano passado. "A feira terá três eixos básicos: os expositores, o Salão de Idéias e atividades culturais voltadas para aproximadamente 5 mil professores, como cursos de atualização, mesas-redondas e seminários", antecipa o vice-presidente da CBL, José Henrique Grossi.
Mas, sem dúvida, entre as maiores expectativas da bienal está a presença de Gunter Grass, ganhador do Nobel de Literatura de 1999. Ele foi convidado pela Editora Record, que vai lançar no evento a edição brasileira de "Meu Século". O livro é considerado a gota dágua para a conquista do prêmio pelo escritor alemão. A lista de nomes estrangeiros que passarão por São Paulo inclui ainda dois destaques da literatura contemporânea inglesa: Helen Fielding e Will Self, que vão participar de debates. Helen é autora de "O Diário de Briget Jones" (Record), romance que tornou a jornalista e escritora uma celebridade em seu país.
Self é autor de "Tough, Tough Toys for Tough, Tough Boys" (Brinquedos Violentos para Garotos Violentos), lançado no fim do ano passado no Reino Unido. Ele esteve na Bienal do Livro de São Paulo em 1994 para o lançamento de seu único livro publicado no Brasil: "Cock & Bull - História de Phadas e Phodas" (Geração Editorial). Divisão política - A Bienal 2000 será aberta num momento delicado para o mercado editorial, escaldado pelo frustrado Salão Internacional do Livro, realizado no ano passado, que deu prejuízos aos editores. A principal causa foi a simultaneidade da Bienal do Rio com o salão, provocando a divisão política entre editores e livreiros.
Segundo Grossi, essas picuinhas já foram superadas pela atual diretoria da CBL, que tomou posse há um ano e fez um acordo informal com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (responsável pela organização da Bienal Internacional do Rio). "As duas diretorias concordaram em não realizar feiras simultâneas, o que prejudica os dois lados", diz Grossi. "Agora, eles nos ajudam e nós os ajudamos".
A Bienal 2000 - que terá um custo total de R$ 6 milhões - será também a oportunidade de avaliar como o mercado editorial vai comportar-se após um ano de retração. Depois de um aquecimento entre 1997 e 1998, período em que o faturamento passou de R$ 1,8 bilhão para pouco mais de R$ 2 bilhões, as vendas caíram sensivelmente em 1999. Um balanço feito pela CBL apontou uma queda de 15% nas vendas de livros no primeiro trimestre do ano passado. "Ainda não temos um balanço completo de 99, mas acredito que houve uma queda de pelo menos 5%", afirma Grossi.
O esfriamento do mercado fez com que a produção brasileira caísse para o oitava posição no ranking internacional - estava em sexto lugar em 1997. No primeiro semestre de 1999, as editoras publicaram 24.718 títulos, num total de mais de 158 milhões de exemplares. Os livros didáticos, principal filão do mercado, foram responsáveis por 61% das publicações vendidas, seguidos de obras gerais (21%), religiosas (11%) e científicas, técnicas e profissionais, estas últimas respondendo por 7%. 500 anos - A Bienal 2000 terá outro trunfo para agitar o setor: as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. Durante todo o evento, serão promovidos seminários de português, história e geografia dirigidos a educadores e ao público em geral. Mas a principal atividade ligada à efeméride serão as séries de encontros "E Agora São Outros 500...", que vão reunir em mesas-redondas grandes nomes da literatura para discutir o futuro do País em diversos aspectos.
Os encontros serão divididos em cinco eixos temáticos: Alma Brasileira, O Futuro das Crianças no Brasil, O Paraíso Imaginado e o Paraíso Perdido, A Inserção Política e A Inserção Econômica. Entre os nomes já confirmados para discutir temas específicos estão Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo, José Simão, Arnaldo Jabor, José Murilo Carvalho, Roberto DaMatta
Jurandir Freire, Nélida Piñon e Moacir Scliar.
Para Grossi, o objetivo da Bienal Internacional do Livro é a "propagação e divulgação do livro". Em sua opinião, não interessa à CBL apenas medir o mercado, mas colocar o público em contato com autores e as novidades do mercado editorial. No entanto, as preocupações da Câmara Brasileira do Livro vão além da organização da Bienal. Há outros problemas como o custo do papel, que disparou com a desvalorização do real no primeiro semestre de 1999. Esse fato é a causa de outro problema ligado diretamente aos leitores: o preço dos livros. "Estamos conscientes de que o preço do livro no Brasil está salgado", admite Grossi. Por enquanto, não há nenhuma previsão para reduzir esses entraves para o crescimento do mercado editorial. Biblioteca Cidadã - Outra preocupação da CBL é a má distribuição de livros no País. Para resolver esse problema, a instituição está preparando o projeto Biblioteca Cidadã, por meio do qual pretende levar, a partir de março, uma biblioteca para cada município brasileiro, independentemente do número de habitantes.
No Brasil, apenas 1% da produção editorial vai para as bibliotecas, enquanto na França, por exemplo, esse porcentual chega a 20%. "A Biblioteca Mário de Andrade, aqui em São Paulo, não recebe livros novos há mais de três anos", informa Grossi. Para tornar o projeto viável, a CBL pretende criar uma organização não-governamental (ONG) para captar recursos, além de buscar uma parceria com o governo.


