Bienal Internacional de Arquitetura trará legado alemão de Rohe
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quinta-feira, 09 de setembro de 1999
Por Ana Weiss (especial para a AE) 
São Paulo, 1O (AE) - O legado do alemão Mies Van Der Rohe (1886-1969) será um dos principais núcleos da última Bienal Internacional de Arquitetura deste século, a quarta edição do evento, que será realizado entre 20 de novembro e 25 de janeiro. O mestre do aço e do vidro terá boa parte da obra representada em 3 mil metros quadrados de sala especial, onde o espectador poderá conhecer criações que documentam a mudança mais significativa na moradia do homem nos últimos cem anos. A sala, organizada pelo Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi e pelo arquiteto Fernando Vásquez Ramos, vai ocupar no terceiro andar do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Ibirapuera, em São Paulo, durante a mostra.
Mies, que nasceu Maria Ludwig Michael Mies Rohe, antes mesmo da influência decisiva da Bauhaus sobre o projeto moderno, levava a cabo a semente lançada por Adolph Loose numa mesa de café de Viena, em 1890: "O ornamento é um crime." Depois de 30 anos do slogan, o arquiteto esboçava as primeiras linhas de um dos emblemas da relação entre a forma e a estrutura, binômio revolucionário para a época e base do movimento estético que acompanhou as mudanças na produção e no comportamento do homem, cada vez mais atrelados à indústria.
Foi no escritório de Peter Behrens (1868-1938), segundo emprego do arquiteto, que Mies inventou a epiderme de vidro que deixava transparecer a ossatura metálica do que seria o grande arranha-céu de vidro, uma das aplicações do novíssimo conceito arquitetônico dessa relação. Na mesma época, Gropius e Le Corbusier trabalhavam no escritório, como projetistas.
Mas nem a relação de Mies com os colegas arquitetos, nem com os movimentos estéticos (ele foi integrante do Novembergroup
de defensores do modernismo) ou comerciais (Mies também liderou a Deustcher Werkbund, associação que facilitava a relação entre os industriais e os construtores) estarão explícitos na exposição. Isso porque, assim como o grande edifício, que será representado por fotografias emprestadas do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), a mostra reunirá apenas exemplos da criação do arquiteto (30 fotografias, 30 painéis e centenas de textos e reconstituições de projetos), que, por si, sintetizam as transformações do período.
O centro da sala especial será, segundo o curador Fernando Vásquez Ramos, a reconstituição em escala real (um para um) do Pavilhão de Barcelona. Obra realizada em 1929 para a Exposição Internacional de Barcelona daquele ano, o pavilhão foi demolido no ano seguinte. "Esse projeto é o grande emblema da produção de Mies, embora só tenha existido um ano como edificação", justifica o curador a escolha da peça como núcleo da mostra. "Também é uma forma de lembrar o ocorrido, uma vez que, este ano, se completam 70 anos de sua curta existência." A montagem será feita em madeira e coberta com papel fotográfico. O público poderá percorrer os espaços internos da reprodução.
Com poucas divisórias, explica o curador, a sala contará ainda com outras peças famosas, mas em escala menor, como as cadeiras Brno e Barcelona, que serão acompanhadas dos conjuntos de móveis organizados de acordo com o período da criação. São peças da linha tubular, por exemplo, da coleção da Forma, que raramente podem ser vistas juntas. "As peças serão distribuídas de forma fluida pelo espaço", acrescenta o curador, que calcula a presença de 17 móveis do arquiteto na exposição.
Outra proposta ousada da equipe de montagem é a construção (essa, em escala reduzida), do projeto para o Consulado-Geral americano, que nunca foi executado. Por essa razão, poucos sabem da existência do projeto, que ocuparia o terreno do Banco Real na Avenida Paulista, motivo da primeira e única visita de Mies Van Der Rohe a São Paulo (mais tarde, ele estaria representado pelos projetos na Bienal de São Paulo de 1959). Durante a visita, em 1957, Mies declarou aos jornais que estava impressionado com a proliferação do concreto armado na capital paulista. Nas palavras dele, um progresso diferente da cidade onde terminou a carreira, Chicago, que estava crescendo em torno do aço aparente.


