São Paulo, 21 (AE) - Porto Alegre voltará a ser a capital das artes em outubro, quando será inaugurada a 2.ª Bienal do Mercosul, Evento idealizado e sustentado pela comunidade local que pretende transformar-se no grande fórum de exibição e discussão da produção artística do Cone Sul. Acabam de ser divulgados os nomes dos cerca de 150 artistas que participarão da mostra e a estrutura geral do evento. "A Bienal deve ser um panorama do que se está produzindo de arte contemporânea na região", define o curador Fábio Magalhães. Segundo ele, esse evento é, sem dúvida, a mais importante iniciativa na área das artes plásticas fora do eixo Rio-São Paulo.
Não foi definido um tema geral, mas há uma intenção evidente que permeia toda a exposição: mostrar o jogo entre as identidades particulares de cada artista e o diálogo que ele estabelece com o restante do mundo. "Somos mais vítimas do nosso tempo do que imaginamos", explica Magalhães, lembrando que hoje em dia os artistas estão perfeitamente sintonizados com o que está ocorrendo no mundo das artes, sem precisar viajar para conhecer o meio artístico dos grandes centros. O que não quer dizer que não existam obras de caráter regional, mas sim que elas, na maioria dos casos, não são frutos do acaso, mas de uma intenção muito precisa.
Há evidentemente algumas exceções, como Juana Marta Rodas, do Paraguai. Esta mulher analfabeta de mais de 70 anos produz por impulso pessoal, sem nenhuma sintonia com o establishment da crítica, impressionantes esferas de barro da qual surgem estranhas bocas e que não têm nada de objeto utilitário nem pertencem ao universo do folclore popular que tanto agrada aos turistas. Segundo a subcuradora da Bienal, Leonor Amarante, o trabalho de Juana também serve para mostrar que nem sempre o jovem é sinônimo de novo, apesar de a média etária dos artistas da mostra não ser superior a 37 anos.
Para compor essa visão prospectiva sobre os seis países que compõem o núcleo da mostra (os quatro do Mercosul mais Chile e Bolívia) e da Colômbia - o convidado deste ano -, Magalhães organizou uma importante equipe de curadores, que mergulhou em suas respectivas regiões. Além de ter uma agenda extremamente carregada, pois acumula também os cargos de diretor do Memorial da América Latina - que, aliás, reforça a importância de sua presença na condução da Bienal do Mercosul - e do Museu Brasileiro de Escultura (MuBE), o curador gosta de trabalhar em equipe.
Trabalho coletivo - Leonor Amarante mapeou o Brasil e ajudou a estruturar toda a mostra, assumindo o papel de uma espécie de co-curadora, como diz o próprio curador. A representação argentina foi montada por Jorge Glusberg; a da Bolívia, por Pedro Querejazu; a do Chile, por Justo Pastor Mellado; a da Colômbia, por Eduardo Serrano; a do Paraguai, por Tício Escolar; e a do Uruguai, por Angel Kalenberg.
Além disso, ainda existem as curadorias especiais, responsáveis pelo segmento de web art - coordenação foi atribuída à especialista em arte e tecnologia Diana Domingues - e pelas salas especiais do evento, dedicadas a Iberê Camargo (Lisette Lagnado) e Julio Le Parc (Sheila Leirner). A sala intitulada Picasso, Cubistas e a América Latina tem curadoria do próprio Magalhães.
Essas exposições prometem ser os grandes destaques da mostra e enfocam aspectos importantes para a linha de trabalho adotada pela curadoria. Numa ponta está sendo reafirmada a importância histórica do cubismo e de Picasso para a arte de todo o século 20 e seu especial reflexo sobre a arte latino-americana. E, de outro, abre-se ao público a possibilidade de conhecer as experiências de ponta que vêm sendo desenvolvidas utilizando o computador e a linguagem virtual como suporte.
Segundo o curador, quem espera encontrar nesse segmento uma arte fria e distante pode surpreender-se. "O artista está trazendo a questão da corporeidade para este meio, humanizando o mundo virtual como antes já havíamos humanizado o mundo natural", conclui. Para reforçar seu argumento, ele cita obras que criam uma curiosa comunicabilidade corpórea com o espectador. Em um deles há uma pluma exibida na tela, que, tal como um elemento da natureza, se espalha quando é soprada. Essa exposição despertou o interesse do Centro Georges Pompidou, que está estudando a possibilidade de exibi-la em Paris.
Representação Nacional - O Brasil tem uma representação mais vigorosa, contando com uma representação nacional de 32 artistas (ao lado de 9 para a Argentina e 11 para o Chile, por exemplo). Há também um grande peso dos artistas da região Sul. "Um dos desafios interessantes de se fazer uma exposição em Porto Alegre foi o de conhecer o meio local, até para entender a cidade e a região", explica o curador, que diz ter ficado impressionado com a densidade cultural que encontrou.
É curioso notar que esses grupos nacionais possuem muitas vezes características comuns, que lhes dá coerência. "Os artistas desta década têm a singularidade de trazer imbutidos em seu trabalho uma carga de identidade de seus países", ressalta Leonor, citando a produção colombiana, na qual está fortemente presente a questão da violência e do narcotráfico.
Entre os brasileiros também há diferenças interessantes na produção recente. Segundo Leonor observou em suas pesquisas, há um predomínio das instalações e da filiação minimalista no trabalho dos artistas do Sul e Sudeste, enquanto que há uma maior liberdade expressiva entre os nordestinos (principalmente entre baianos e pernambucanos), que não descartaram a tradição da pintura.
Boa parte dos artistas selecionados é pouco conhecida do grande público, mas essa é exatamente a intenção dos curadores. Há também nas listas a presença de nomes já consagrados, como o brasileiro Tunga e a argentina Marta Minujin. Ambos estarão com trabalhos no segmento especial de intervenções urbanas, fazendo obras em grande escala.
A expectativa dos organizadores é de repetir o sucesso da primeira edição que, há dois anos, conseguiu uma grande repercussão, tendo sido visitada por 299 mil pessoas e recebido trabalhos de 275 artistas de sete países latino-americanos. Afinal, como bem lembrou Leonor, a mostra que está sendo preparada é uma espécie de continuidade do evento organizado pelo crítico Frederico Morais em 1997. Enquanto o primeiro enfocou o período relativo às décadas de 60 e 80, a exposição atual lança um olhar prospectivo sobre o futuro da arte na região, exatamente na virada para o ano 2000 (a Bienal fica em cartaz até 9 de janeiro).
Após um susto inicial, os organizadores do evento conseguiram garantir sua realização no prazo previsto. Para isso
foi necessário convencer o empresariado a apoiar a iniciativa, apesar de algumas dificuldades políticas e da desvalorização do real. "Até o momento já conseguimos mais da metade dos recursos necessários", explica o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Ivo Nesralla, que, além de cirugião cardiologista, foi diretor da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre por oito anos.
Para obter o máximo do esforço de montar uma exposição desse porte, com um orçamento enxuto de apenas US$ 4 milhões, Magalhães vem dando uma grande atenção aos catálogos, preocupado em garantir uma boa qualidade tanto gráfica quanto de informação. Ao todo serão cinco publicações. As mostras sobre Iberê Camargo, Julio Le Parc, Arte e Tecnologia e Picasso terão obras separadas e uma outra publicação trabalhará sobre as representações contemporâneas.

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