BIENAL DO LIVRO - Wolfe elogia Gilberto Freyre e Bush
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quinta-feira, 12 de maio de 2005
Rafael Cariello<br> Folhapress 
Usando um dos seus 24 ternos brancos, camisa combinando com os olhos azuis, o repórter do status, Tom Wolfe, anunciou anteontem no Rio que voltará à não-ficção, escrevendo sobre o principal assunto de seus romances: hierarquia e prestígio social. A novidade, diz um dos ''pais'' do jornalismo literário, é que ''tudo é tão mais complicado agora. A classe alta fala como a classe baixa. O que um homem rico que se veste num estilo chamado ''pós-sem-teto' quer dizer sobre si mesmo?'', pergunta. Não, ele não falava do Tom Zé de ''Estudando o Pagode'', mas fez outras referências ao Brasil na entrevista coletiva de lançamento de seu novo livro, ''Eu sou Charlotte Simmons'', que antecedeu a 12 Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro que começou ontem no Riocentro.
Citou o sociólogo Gilberto Freyre (1900-87), autor de ''Casa Grande e Senzala'', como um exemplo de autor capaz de se aprofundar na vida real a ponto de elevá-la a um nível literário; elogiou o filme ''Cidade de Deus'' (2002), de Fernando Meirelles, e questionou os repórteres se era baseado em um livro (do escritor Paulo Lins).
Tudo a ver com seu tema de sempre, como o país que acaba de conhecer. ''As diferenças entre as regiões do Brasil, o Nordeste e a região Sul, assim como essa região ao redor do Rio, tudo caberia nesse livro que quero fazer a seguir, sobre status social.'' E com seu novo romance. Charlotte Simmons sai de um grotão do Estado sulino da Carolina do Norte para a universidade fictícia de Dupont, na rica Pensilvânia. Tropeçando em orgias sexuais e barris de cerveja, a menina ingênua e virgem também será posta à prova pelos olhares normatizadores de seus colegas. Wolfe descreveu o livro como um conflito entre a individualidade da senhorita Simmons e as normas sociais daquele local específico, suas regras de status. É óbvio quem sairá vencedor.
Longe de ser um conservador, apesar dos ternos impecáveis e sempre iguais (já teve ''muitos'', 34, hoje tem ''só'' 24 e trouxe cinco ao Brasil), rejeita a crítica feita na imprensa anglo-americana de que disfarçaria mal sua repulsa pelo ''carnaval sexual'' em marcha permanente e ritmada nos dormitórios universitários. ''Os que disseram que eu não me sinto confortável são em geral pessoas que, elas mesmas, não se sentem à vontade com sexo'', rebate o autor.
À maneira de um repórter, Wolfe passou meses em universidades americanas pesquisando o assunto. Descreve o tratamento que deu ao seu ''exercício de descoberta'' como puro objetivismo, sem julgamento de valor. ''Não há nada naquele livro para que possam dizer que estou atacando esse tipo de vida.''
Nessa confusão entre o que é jornalismo -''em 1973, jurei jamais voltar a falar sobre o ''new journalism'; e aqui estamos, em 2005''- e o que é literatura, ele transferirá o tema de ''A Fogueira das Vaidades'' para o cotidiano de hoje nos EUA. ''É o assunto mais interessante do mundo'', ele diz. ''O que faz uma pessoa ser ''cool'? Ou, no caso de uma garota, ''hot'? Isso é fascinante.''
Sobre um assunto que considera bem menos fascinante, a política, ele defendeu mais uma vez o presidente George W. Bush, dizendo que prefere o republicano, ''um soldado'', a Clinton nesse momento pós-11 de Setembro. ''É difícil para pessoas de lugares fora de Nova York, mesmo dos EUA, entender o que aconteceu'', diz. E rejeita a idéia de que há perdas de direitos civis em curso no seu país. ''Os EUA vêm ''se tornando fascista' há 55 anos'', ironiza. ''Sinto que o coração dos EUA está sempre no lugar certo. O país permanece um lugar livre'' - conclui.


