Os “Brics” são uma invenção do mundo financeiro. O acrônimo foi criado pelo mercado para se referir às economias do Brasil, Rússia, Índia e China, que depois o aproveitaram para batizar a uma espécie de clube de emergentes.

Não por acaso, quando os chefes desses países — incluindo também a África do Sul — se reunirem na cúpula do grupo em Brasília, em novembro, será para falar sobre crescimento econômico e assuntos como o Banco dos Brics.

Um outro tipo de aproximação em resposta ao encontro no Brasil está sendo proposto pela 14ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba, que começou em 21 de setembro e segue até março de 2020 com parte de sua programação concentrada na arte contemporânea dos Brics.

Obras de importantes artistas brasileiros, russos, indianos, chineses e sul-africanos são colocadas lado a lado no MON (Museu Oscar Niemeyer), principal sede do evento.

“O Brics foi criado para promover uma troca econômica maior, mas é o intercâmbio cultural que vai dar alicerce para uma integração”, explica Tereza de Arruda, curadora da bienal ao lado do espanhol Adolfo Montejo Navas.

Lerato Shadi (África do Sul): artista esteve na abertura da bienal fazendo uma performance em que tricota, em silêncio, uma peça vermelha
Lerato Shadi (África do Sul): artista esteve na abertura da bienal fazendo uma performance em que tricota, em silêncio, uma peça vermelha | Foto: Ana Eduarda Diehl/ Divulgação

A montagem coloca as obras para conversar. Os objetos do cotidiano brasileiro reunidos nas assemblages de Farnese de Andrade (1926–1996) se aproximam dos tafetás da instalação de Rakhi Peswani, também triviais na indumentária indiana. Um dos trabalhos do brasileiro Leonardo Kossoy, que criou uma pequena cena de teatro tridimensional com pedaços de madeira recolhidos em viagens, dialoga com as ilustrações dos russos Ilya e Emilia Kabakov criadas para a montagem de uma ópera.

A seleção foi orientada pelo conceito curatorial “Fronteiras em Aberto” — inspirado também pelo aniversário de 30 anos da queda do muro de Berlim. Para Arruda, o fato marca um processo de abertura que transformou o Leste Europeu e moldou a China que se conhece hoje — e que também se apresenta por meio das obras de artistas chineses na bienal, que trazem elementos milenares para a contemporaneidade.

O espectador poderá perceber o reflexo do conceito curatorial na diversidade de estilos, temas, materiais e suportes das obras. “Estamos falando sobre fronteiras em aberto em várias vertentes, por várias perspectivas”, diz a curadora. “Não falamos somente do contexto geográfico, mas também de consequências sociopolíticas, econômicas. E da arte contemporânea, que nunca foi tão diversificada”, explica. “As fronteiras nunca foram tão maleáveis quanto hoje.”

Espaços

Além do MON, com nove espaços dedicados à bienal, a programação se espalha por dezenas de pontos de Curitiba, entre instituições culturais, galerias e espaços públicos. Também foram incorporadas exposições em outras cidades — incluindo a mostra "Arte Londrina 7", na Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL, que ficou em cartaz até a última sexta-feira (4). Uma das exposições ocorrerá na China. “A ideia é levar uma parte da bienal para pontuar uma relação com pessoas de outras regiões, que não poderão vir”, diz Arruda.

Vladimir Potapov(Rússia): pintura inspirada em coletiva de imprensa com o presidente russo Boris Yeltsin e o americano Bill Clinton nos EUA, em 1995
Vladimir Potapov(Rússia): pintura inspirada em coletiva de imprensa com o presidente russo Boris Yeltsin e o americano Bill Clinton nos EUA, em 1995 | Foto: Divulgação

Destaques

Vladimir Potapov (Rússia)

O artista produziu para a Bienal de Curitiba uma pintura inspirada em uma coletiva de imprensa com o presidente russo Boris Yeltsin e o americano Bill Clinton nos Estados Unidos, em 1995. O episódio ficou famoso devido a uma imprecisão na tradução simultânea que fez parecer que Yeltsin chamou os repórteres presentes de “desastre”. “É uma cena muito conhecida na Rússia e mostra como fronteiras culturais e linguísticas podem criar um grande confronto por mera casualidade”, diz a curadora da bienal, Tereza de Arruda.

Rakhi Pesvani (Índia): artista usa tecidos em tafetá para imprimir textos de autores como Susan Sontag e Toni Morrinson
Rakhi Pesvani (Índia): artista usa tecidos em tafetá para imprimir textos de autores como Susan Sontag e Toni Morrinson | Foto: Divulgação

Rakhi Pesvani (Índia)

A artista usou tecido de tafetá, elemento recorrente na cultura indiana, para imprimir textos de autores como Susan Sontag e Toni Morrison. Os textos ficam suspensos, como se fossem páginas rasgadas.

Cildo Meireles (Brasil)

Artista brasileiro com prestígio internacional, Meireles está presente com “Cruzeiro do Sul” — um bloco de madeira minúsculo que é uma das menores obras de arte do mundo. A obra está exposta no meio de uma sala, sob um holofote. “Em uma exposição como essa, é extremamente importante, porque está demarcando um território”, explica a curadora.

Lerato Shadi (África do Sul)

A artista esteve na abertura da bienal, em 19 de setembro, com uma performance em que tricota, em silêncio, uma longa peça vermelha a partir de uma enorme bola de crochê — que permanece na sala.

AES + F (Rússia): coletivo participa da bienal com o vídeo instalação 'Inverso Mundus'
AES + F (Rússia): coletivo participa da bienal com o vídeo instalação 'Inverso Mundus' | Foto: Divulgação

AES + F (Rússia)

O coletivo russo participa com uma instalação de vídeo, “Inverso Mundus”, inspirada em gravuras medievais que retratam cenas invertidas — como um porco que tira as tripas do açougueiro. “Dá-se uma visibilidade para cenas do cotidiano com uma brutalidade que nos choca, mas que é respaldada em uma realidade que a gente ignora. É imperdível”, diz Arruda.

Serviço

14ª Bienal de Curitiba

Quando: até 1.º de março de 2020

Onde: Museu Oscar Niemeyer (R. Marechal Hermes, 999 — Curitiba) e outros espaços (mais informações em bienaldecuritiba.com.br)

Quanto: MON: R$ 10,00 (meia-entrada) e R$ 20,00 (inteira).

Outros espaços: entrada franca

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