São Paulo, 23 (AE ) - Arquitetura é a vontade de uma época traduzida em espaço vivo, novo, mutável. Quem disse isso foi um dos maiores arquitetos do século, o alemão Mies van der Rohe (1886-1969), sem nunca ter visto um projeto do brasileiro João Filgueiras Lima, o Lelé, que está sendo homenageado pela 4.ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo justamente com um livro e uma sala especial ao lado da sala de Van der Rohe. Merecidamente. Como diz seu colega Niemeyer, ninguém deveria assinar um projeto de hospital sem antes conversar com Lelé.
Lelé resistiu às tentações formalistas do pós-modernismo e ao fetichismo high tech. Sinônimo de saúde mental na arquitetura, ele não apenas projeta hospitais - e os mais funcionais são efetivamente os seus - como tem absoluto controle sobre problemas de edificação. Aos 65 anos, esse carioca que vive em Salvador, primeiro arquiteto convidado por Niemeyer para trabalhar na construção de Brasília, não alimenta projetos utópicos. Quer apenas demonstrar a viabilidade de uma aquitetura decente, bonita e barata num país miserável.
Pioneiro no uso da argamassa armada no Brasil, Lelé tem ainda outros méritos. Tirou o ar condicionado de hospitais, substituindo-o por um sistema de ventilação original, e dedicou sua vida a projetos sociais que, por sua vocação pública, não fazem barulho na mídia. Discreto, preferiu sair do circuito jornalístico ao recusar há sete anos assessoria técnica ao governo Brizola, por discordar do gerenciamento da construção dos Ciacs, ele que havia sido idealizador dos Cieps, a versão original implantada por Brizola no Rio para prestar atendimento integral às crianças em idade escolar.
Modelo de hospital - Atingido pela incompreensão de políticos e recusando acordos com outros governantes, Lelé preferiu trabalhar em silêncio com a rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor, administrada pela Associação das Pioneiras Sociais desde 1991. De novo ele encontrou o médico Aloysio Campos da Paz Júnior, que o socorreu em 1964, quando Lelé e sua ex-mulher, a também arquiteta Alda, sofreram um acidente na estrada perto de Brasília.
Internado no primeiro Hospital Distrital da capital, hoje Hospital de Base, Lelé desenvolveu, a seu pedido, instrumentos e equipamentos para locomoção de candangos fraturados na época da construção. E mais: o doutor Aloysio, até hoje um de seus melhores amigos, também o convenceu a desenhar hospitais. Conversando, eles questionavam a verticalização desses prédios, pensando nas casas de saúde inglesas com sua arquitetura horizontal, enfermarias que se abrem para pátios e áreas para banhos de sol dos pacientes. Enfim, ambos pensavam numa arquitetura de viver para quem sofria o inferno do isolamento e da paralisia.
Arrimo de família, Lelé foi escrevente e bom jogador (tanto que herdou o apelido do meia direita do Vasco da Gama) antes de se dedicar à arquitetura. "Nunca planejei ser arquiteto, foi um acidente de percurso." Lelé, diz ele, tinha mais jeito para música. Flautista, acordeonista e pianista, acabou descobrindo na arquitetura muita coisa em comum com a música erudita, o jazz e a poesia. "A arquitetura pós-moderna quer ser science fiction, mas, sem harmonia, ritmo e pausa, a arquitetura não é nada", diz. "Com a mudança vertigionosa das cidades, os espaços tecnológicos ficam obsoletos rapidamente e tudo vira descartável", conclui, alertando para o fetiche de edifícios inteligentes, controlados por computador.
Lelé é discreto quando fala da desorganização espacial paulistana ou dos megaprojetos de torres com meio quilômetro de altura. Ele apenas projetou pontos de ônibus de argamassa para o governo de Erundina. Como qualquer projeto feito com essa tecnologia, esse utilizava peças pré-moldadas à base de ferro e cimento, produzidas em série. Seu baixo custo e rapidez permitia que um ponto desses fosse instalado em apenas um dia. Uma passarela exigia pouco mais: cinco dias.
"As elites empresariais, porém, estão mais preocupadas em promover políticos, daí o fracasso dos Ciacs", observa. Para se ter uma idéia do baixo custo, um hospital como o Sarah de Fortaleza sai por US$ 40 milhões totalmente equipado. Sem proliferação de fungos e bactérias. No Nordeste, Lelé fez hospitais em que os pacientes recebem ar puro por intermédio de um sistema de renovação atmosférica implantado com sucesso em Fortaleza. "O ar condicionado é uma fonte de bactérias", justifica o arquiteto.
Lelé trabalhou ao lado de Lina Bo Bardi num projeto de recuperação da Ladeira da Misericórdia, em Salvador. Considera o arquiteto um "clínico geral", que deve estar atento à incorporação da obra artística. Athos Bulcão é seu colaborador mais fiel. No Brasil, ele é conhecido apenas por um pequeno círculo de admiradores, a exemplo de Lelé, mas o destino do arquiteto, como prova a Bienal de Arquitetura, é o de estar ao lado dos grandes mestres.

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