Bidu Sayão em grande estilo
Carlos Haag
Agência Estado
Nem é preciso uma complicada máquina do tempo: basta um aparelho de CD para se voltar 60 anos e reencontrar Bidu Sayão, o rouxinol brasileiro, em sua estréia no Metropolitan Opera, de Nova York, na Manon, de Massenet, em 13 de fevereiro de 1937. Com outros cantores isso sempre foi fácil e não era preciso sonhar em ouvir Callas, pois havia discos o bastante para se saber o que era estar com ela num teatro. Mas com Bidu só podíamos imaginar como seria a sua Mélisande, a sua Norina. Bem, prepare-se para uma viagem aos bons tempos do canto e, ainda melhor, sem gastar muito dinheiro.
A série Immortal Performances, da Naxos, traz quatro óperas completas com a pequena notável canora: Don Pasquale, de Donizetti (2 CDs), de 1940; Manon, de Massenet (3 CDs), o debut de Bidu no Met em 37; Don Giovanni, de Mozart (2 CDs), ao lado de Ezio Pinza como o sedutor e a regência de Bruno Walter, de 1942; e, ainda mais desejável e esperado, Pelléas e Mélisande (2 CDs), de Debussy, com Lawrence Tibbett, um registro antológico de 1945.
Há chiados de montão (não são, no entanto, gravações piratas, porém, registros de audições no rádio ao vivo do Met, incluindo palmas e comentários do locutor) e, sem dúvida, não podem ser indicadas como primeiras versões de sua coleção, mas são compras obrigatórias para quem amar o talento de Bidu Sayão. O que não é difícil.
Ela tem uma voz admirável, de encanto impregnante, que frágil tenuidade sabe vibrar tão intensamente, frágil e intensa, ao mesmo tempo, em seu canto; ela prova que uma alma de ave pode escalar na paixão, escreveu Mário de Andrade para definir o rouxinol. Sobra mesmo pouco o que acrescentar. Talvez, elogiar a limpidez de seu canto, a homogeneidade absoluta em qualquer registro, uma interpretação de notável sabedoria dramática de cada frase. Quase não se percebe o trabalho por trás da perfeição, porque há sempre a emoção em primeiro plano, se sobrepondo ao mero virtuosismo. Aliás, como um pássaro mágico, Bidu parece estar no limite de quebrar-se como um cristal, de que estamos ouvindo seu canto de cisne. Ou de rouxinol.
Sua Mélisande é plena de nuances, misteriosa e atmosférica como Debussy a idealizou. A Zerlina, de Don Giovanni, é a própria graça picante e sedutora em sons (com o bom contraponto de Pinza em La cí Darem la Mano). Sua Norina, de Don Pasquale, podia ser algo mais humorada, mas é bela e sapequinha na medida. É preciso ouvir, porém, a sua estréia em Manon um dos charmes desses discos.
A ópera de Massenet marcou o início da longa parceria da cantora com o Met, que durou até 1957, quando Bidu deixou os palcos. E ela entrou pela porta da frente, ajudada por Toscanini, que procurava uma soprano e lhe sugeriu Pelléas, para o futuro, e Manon para aquele momento. Um sucesso, audível mesmo com chiados.
De quebra, o disco traz uma entrevista com Lucrezia Bori (a quem Bidu substituiu no Met), transmitida durante os intervalos da audição, e um inusitado rouxinol cantando Carlos Gomes (delícias), Verdi, Mascagni e Puccini (que ela amava, mas nunca ousou fazer em cena, para não estragar sua voz). O perigo dessa viagem é não se querer retornar para os gritos de Pavarotti e companhia, o que nos restou de volta para o futuro. Vá já para a loja de discos.





