Bichos esquisitos com cara de gente
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de agosto de 2000
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Todo mundo já ouviu falar de bichos esquisitos como ornitorrinco-de-papo-amarelo, tatu-bola-furada, tamanduá-bandeira-dourada, mas pouca gente conhece um comilão. Espécie encontrada apenas nas florestas dos contos de fadas, os comilões são bichos que adoram fazer buracos na terra e, principalmente dormir até tarde. Por esse motivo, constróem suas casas em lugares isolados, embaixo de pedras, isso para que nenhum canto de pássaro venha acordá-los de manhãzinha.
Para quem nunca viu um comilão, ou mesmo outros bichos como calafangos e verdugos, pode conhecê-lo em O Comilão, livro infantil de Cláudio Thebas que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letrinhas. Com ilustrações de Elisabeth Teixeira, a obra traz a interessante história de um comilão, na verdade um comilinho, um filhote de comilão chamado Guinf.
Guinf é um filhote comum, como toda e qualquer criança. Faz birra para sair da cama e reclama para escovar os dentes antes de dormir. Mora com os pais numa confortável toca e ainda conhece pouca coisa do mundo exterior. Pode sair de casa apenas na companhia da mãe ou do pai, assim, é louco para deixar de ser um comilinho e se tornar um comilão de verdade.
Um belo dia de primavera, a mãe de Guinf chega com uma novidade: ele poderia passear sozinho pelas redondezas, igual bicho grande ou melhor, como bicho quase grande.
Em sua primeira aventura solitária pelo mundo exterior, o pequeno comilão encontra um grupo de filhotes, uma espécie que nunca tinha visto antes, brincado na floresta. Tinham, além de barrigas peladas, orelhas enormes que se arrastavam no chão. Numa rápida conversa fica sabendo que são calafangos e, pior, que não gostam de comilões. A razão é uma surpresa um tanto desagradável: comilões matam e comem calafangos. O próprio pai de Guinf, segundo depoimento do grupo, já matou vários membros daquela família.
O pobre comilinho fica desolado. Volta para casa cabisbaixo, chutando pedra. Não conseguia entender como seu querido, amável e bom pai era capaz de matar calafangos. Confuso e com o coração ferido, se refugia em sua própria imaginação. Em suas fantasias, torna-se um valente cavaleiro que enfrenta um grande desafio, libertar uma princesa das garras de um terrível dragão.
Em seus passeios posteriores, longe da barra da saia dos pais, Guinf começa a entender melhor o mundo. Conhece coisas e bichos até então desconhecidos por ele. Conhece, por exemplo, animais chamados verdugos que gostam dos comilões porque os comilões comem calafango isso porque os calafangos adoram comer verdugos. Também conhece, através de uma corrida desesperada, um bicho que come os próprios comilões.
Em suas aventuras na floresta, Guinf sente que lentamente alguma coisa está acontecendo: ele está crescendo, está deixando de ser um comilinho bobinho. Esse processo de crescimento traz tanto alegrias como dores. Guinf não entende completamente as transformações que ocorrem em sua vida, mas sabe que algo está mudando. Começa a ter vontade de aprender construir, com a ajuda do pai, a própria toca.
A história de Cláudio Thebas narrada em O Comilão toca em pontos sensíveis do processo de crescimento das crianças. Através de princípios básicos de ecossistema, apresenta o mundo como ele realmente é. Através da relação entre pais e filhos, mostra a naturalidade dos papéis na construção de um relacionamento saudável. Através da fantasia, revela que o imaginário é um importante ingrediente para a construção da realidade. Guinf, o comilinho é, de maneira clara, um desses belos bichinhos esquisitos que os pais chamam de filho.
O Comilão De Cláudio Thebas, ilustrações de Elisabeth Teixeira, Editora Companhia das Letrinhas, 48 páginas, R$ 19,00.


