"Bicho de Sete Cabeças" discute a relação de pais e filhos
"Bicho de Sete Cabeças" discute a relação de pais e filhos14/Mar, 15:59 Por Marcelo Lyra São Paulo, 14 (AE) - A Vila Madalena parece mesmo destinada a ser cenário. Depois da insípida novela "Vila Madalena", da Rede Globo, agora é a vez de o filme "Bicho de Sete Cabeças", da cineasta Laís Bodanzky, utilizar o bairro paulistano como palco de seu enredo. Um dos cenários da recém-iniciada filmagem é uma pequena casinha na Vila, que mal consegue abrigar toda a equipe. Outros bairros paulistanos também aparecem, mas nenhum ganhará crédito. "Não vou citar a cidade onde ocorre a história, pois pretendo que ela seja universal". A agitação das gravações lembra um formigueiro. Tudo deve ser seguido à risca. Basta meia hora de atraso no cronograma para a produção cobrar mais rapidez da diretora. "Nosso orçamento é muito apertado e não podemos estourar o prazo, pois isso significa gasto extra", explica Laís. Ela dispõe de R$ 700 mil, para serem consumidos até o dia 3. O restante do US$ 1,5 milhão obtido pela produção será gasto na fase de finalização e divulgação. Apesar de pequeno, o orçamento dá para o gasto. "Montamos as necessidades em função do orçamento, mas sem abrir mão da qualidade", garante. Assim, o som é digital, a equipe é composta por profissionais que atuaram em vários longas e a finalização será feita com os melhores equipamentos. Também não economizaram com o elenco de atores. O global Rodrigo Santoro encontrou um papel sob medida para suas limitações, pelo menos na fase em que o adolescente Neto tem problemas de relacionamento com os pais. O veterano Othon Bastos faz o pai, enquanto a mãe é interpretada por Cássia Kiss. Pichações - Neto canaliza sua revolta para as pichações de muro e, por influência dos amigos, acaba usando drogas. Os pais não o entendem e acabam por interná-lo como louco num manicômio. Lá ele vai descobrir um outro universo. "A idéia é fazer um filme que retrate a dificuldade de comunicação entre pais e filhos", explica Laís. Mas ninguém espere nada na linha de "Confissões de Adolescente". A diretora deve ir mais fundo, principalmente porque o roteiro é baseado no relato autobiográfico "Canto dos Malditos", do curitibano Austregésilo Carrano, que realmente foi internado e passou maus bocados. Laís conheceu esse livro há quatro anos, quando fazia pesquisas sobre o tema da loucura e ficou impressionada ao ler o trabalho de Carrano. "A maioria dos livros que recebi era de psiquiatras, mas ao ler o relato de um paciente senti que tinha um filme em mãos", explica ela, que desde então lutou por um financiamento que permitisse transformar a história em cinema. A diretora é estreante em longa-metragem, mas conduz as filmagens com a segurança de uma veterana. Talvez porque seja filha do diretor Jorge Bodanzky, de "Iracema, uma Transa Amazônica", e tenha crescido em meio a câmeras e latas de filme. Seu estilo foi forjado nos documentários de curta-metragem, como "Cine Mambembe", e em ficção, como "Cartão Vermelho". Ela deixa os atores à vontade para improvisos e prefere os planos-sequência, aquelas tomadas mais longas em que a câmera vai atrás dos atores. Detalhes - Exigente em relação a detalhes que considera importantes, ela repete os ensaios diversas vezes e faz questão que expressões e determinados ângulos fiquem exatamente como imaginou. Empolgada com os resultados, ela admite que pretende deixar os documentários de lado. "Estou me sentindo realizada com as possibilidades que a ficção oferece", conta ela. Laís é casada há quatro anos com o roteirista Luis Bolognesi, com quem dividiu a direção do curta "Cinema Mambembe". Luis, que faz uma pequena ponta no filme, trabalhou dois anos no roteiro e admite que a versão é livre. "Criei alguns personagens e eliminei outros, para adaptar o livro à linguagem do cinema". Acrescentou também elementos do livro "Carta ao Pai", de Franz Kafka. "O texto de Kafka fala do mesmo problema de relacionamento, mas com alguns detalhes que consideramos importantes", explica. Depois de passar por roteiros de documentários, ele admite que é melhor trabalhar com ficção. "As cenas ficam praticamente iguais ao planejado, ao passo que o documentário segue as pessoas que são entrevistadas, o que sempre é uma surpresa". As filmagens de "Bicho de Sete Cabeças" vão até abril e depois o material segue para a Itália, onde será finalizado. A previsão é que esteja pronto para lançamento no fim do ano. A data definitiva ainda vai ser decidida. "Vamos procurar o momento adequado", finaliza Laís.





