Bia Lessa e Renata Sorrah devem repetir parceria no palco
São Paulo, 15 (AE) - O entrosamento entre a diretora Bia Lessa e a atriz Renata Sorrah em "As Três Irmãs" vai render novos frutos. As duas vão repetir a parceria teatral na montagem de "Closer", do dramaturgo inglês Patrick Marber que deve estrear no Rio e cujos direitos de encenação foram adquiridos por Renata após ter assistido à peça em Londres. No momento, Bia Lessa trabalha na edição de seu mais recente longa-metragem, misto de ficção e documentário, que tem o título provisório de "Brasil" e deve ser lançado até o fim do ano. Há algum tempo afastada do teatro, Bia alega ter tido motivos muito especiais para dirigir "As Três Irmãs".
Seu distanciamento dos palcos se deu por causa de um sentimento de desgaste da representação justamente pelo excesso na sociedade contemporânea do espetáculo. "Todas as referências estão envelhecidas - de uma cena de funeral até uma cena de amor tudo fica esvaziado, parecendo cópia malfeita da cópia," argumentou. Segundo ela, ao ler Chekhov impressionou-a o fato de ele falar justamente desse deslocamento com relação à vida. "As personagens são mulheres que conhecem várias línguas, mas não conseguem conectar as suas vidas, não conseguem realizar seus desejos mais primários". Em sua concepção procurou reforçar esse deslocamento. Daí ter tomado a liberdade de colocar em cena vários empregados inexistentes no texto. "No início do espetáculo as personagens não tocam em uma cadeira, tudo o que elas precisam algum empregado faz por elas", diz. Empregados que vão desaparecendo no decorrer da peça. "Elas são, então, obrigadas a tocar nas coisas, a tocar na vida". A diretora justifica ainda o uso de recursos como play-back e legendas como forma de reforçar os diferentes volumes de voz. "Na vida, quando alguém vai falar de amor num encontro íntimo, o faz em voz baixa". Daí, por exemplo, numa cena de amor entre Macha e Verchinin, ambos cochicham no ouvido um do outro, cochichos gravados durante os ensaios e reproduzidos em play-back no palco. "É como se o público os observasse pelo buraco da fechadura".
O mesmo critério de ligação com "a vida como ela é" a levou a usar legendas numa cena. "Muitas vezes alguém está falando com a gente, mas nossa atenção se distancia das palavras e foca-se nos gestos de quem fala". Numa das cenas, os atores conversam sem se escutar, nem o público ouve as falas, que podem no entanto ser lidas. O mesmo recurso é utilizado para "reforçar" certos trechos da peça. "Mas o espetáculo não é pirotécnico, Chekhov é texto e todos os recursos estão a serviço do texto".
Quanto à futura direção de "Closer", Bia ainda não começou a estudar o texto e nem ao menos viu a montagem londrina. Embora tenha lido a obra, que definiu como "interessante", afirma ter-se encantado mesmo com a possibilidade de continuidade de processo ao voltar a trabalhar com Renata Sorrah. "Ensaiei Chekhov em três meses quando precisaria de um ano", conta. Ele vê no fato de não ter uma companhia fixa um dos grandes empecilhos à verdadeira criação artística. "Hoje, os atores pulam de uma montagem para outra e, com isso, vão perdendo o sentido do risco da arte".
No momento, Bia dedica-se à montagem de "Brasil". Em meses de viagem pelo País, ela filmou o nascimento de uma criança, depois acompanhou o dia-a-dia de uma criança de 1 ano, outra de 2 e assim por diante. "Filmei com pessoas e em lugares diferentes uma mulher do nascimento à morte, passando pela primeira menstruação e casamento". Ela agora edita essas cenas reais criando uma única história. (B.N.)





