BEZERRA DA SILVA, O VELHO DE GUERRA
Marcos Freitas
De Curitiba
Ele voltou, para deleite dos fãs paranaenses. Bezerra da Silva está em Curitiba pela segunda vez em sua carreira e hoje faz um show na Forum. Para quem for assistir ao espetáculo, uma surpresa: o vocalista do grupo de rap Planet Hemp, Marcelo D2, vem para fazer uma participação especial no show de Bezerra.
Com 24 discos gravados e preparando um disco ao vivo, que deve ser lançado daqui a dois meses, Bezerra da Silva é considerado um dos ícones do samba brasileiro. Grande revelador de talentos e intérprete de músicas que, literalmente, são a sua cara, muito crítico e jocoso, ele é considerado por muitos como um mestre. Crítico social, inteligente e muito bem-humorado, Bezerra possui um público fiel e eclético. Tem neguinho de 10 a 100 anos nos meus shows, conta. Já gravou com várias bandas de rock e hoje faz participações em discos de consagrados grupos de rap nacional.
Ele nasceu em Pernambuco há 62 anos. Expulso pela fome no Nordeste, chegou ao Rio de Janeiro com 15 anos. Trabalhou na construção civil e em outras atividades. Começou a estudar música e nunca mais parou. Fez violão clássico, toca piano, pandeiro e está estudando para dominar o trumpete.
Gravou o primeiro disco - um compacto simples - em 1969, na extinta gravadora Copacabana. Mesmo fazendo certo sucesso, Bezerra da Silva só voltaria aos estúdios em 1975, para gravar O Rei do Coco, em dois volumes, pela Tapecar. Mas foi na gravadora CID - a mesma com a qual ele quer gravar um disco inédito até o fim do ano, que já tem um subtítulo: O bom filho à casa torna - que Bezerra definiu seu estilo, hoje inconfundível. Já na RCA (atual BMG) gravou 14 discos, consolidando-se como grande nome do samba e admirado por outras alas da música brasileira. Atualmente divulga o disco Eu Tô de Pé e trabalha para finalizar o disco ao vivo que será gravado na favela da Rocinha.
Em Curitiba desde segunda-feira, Bezerra saiu com a reportagem da Folha para dar uma volta na capital paranaense. A entrevista propriamente dita aconteceu em um dos restaurantes mais tradicionais da cidade: o Bar Palácio. Já sabendo do roteiro, Bezerra avisava: Podem me levar para qualquer palácio, menos o da Justiça. Durante a conversa ele falou sobre os problemas sociais do Brasil, criticou a forma como são pagos os direitos autorais dos artistas e se diz surpreso com o carinho do povo paranaense. A seguir, trechos da entrevista:
Apesar de ter um grande número da fãs é difícil ver propaganda de seus discos ou mesmo vê-lo em programas de TV. O que acontece?
Duas coisas. a primeira é que eu não tenho papas na língua e falo a verdade para quem quiser ouvir, e isso muitas vezes desagrada às gravadoras, que querem impor certos padrões ao meu samba, o que eu não aceito. Por isso me deixam à margem da mídia. Outra coisa é que eu não pago para aparecer em programa algum como acontece na maioria das vezes com os artistas de hoje. O pior é que ninguém assume isso, na verdade o único que fez isso foi o Raul Gil (apresentador da Rede Record), que botou a boca no trombone dizendo que cobrava para cobrir gastos do programa. Mas, graças a Deus, isto nunca me derrubou. Meu público é fiel e me consagrou com 10 discos de ouro e dois de platina.
Sua briga pelos direitos autorais no Brasil se transformou em uma causa de vida. Quais são os principais problemas?
É um código secreto que ninguém entende. O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) - órgão federal que é responsável pelo pagamento dos direitos autorais sobre obras de artistas, músicos e compositores - determina o quanto quer pagar para os artistas e nós temos que aceitar. Isso é um roubo e eu não aceito. É por isso que estou lendo um livro sobre os meus direitos. Vou ser uma pedra no sapato deles, afinal eu tenho direito de saber os meus direitos e quero que paguem o justo preço pela minha poesia.
Em uma das músicas que você canta (Candidato Caô, Caô) você cita os políticos em tempos de eleição. Aqueles que sobem até os morros e tentam se passar por moradores para atrair os votos da população. Ano que vem tem eleição novamente e a prática do Candidato Caô vai continuar?
Não tenha dúvidas. Seca e favela são os paraísos dos políticos. É como a própria música fala: Escuta o que eu vou lhe dizer, hoje ele pede seu voto amanhã manda lhe prender. Essa situação infelizmente nunca vai mudar pois o povo não é politizado e vota em qualquer um. Eu mesmo não voto, afinal ninguém merece meu voto. O único que mereceria é Jesus Cristo, mas esse também levou uma piaba e não está mais aí. É como o Dicró (compositor carioca) diz: Traidor, traidor, se tem coisa que não presta é o eleitor. Lembrando que na época em que se candidatou a vereador no Rio de Janeiro, Dicró não recebeu nem o voto de sua mãe. Mas também com um candidato desses fica difícil. Lembro bem de um comício que o Dicró fez na Baixada Fluminense. Ele perguntava: Vocês têm luz? Não. Têm água? Não. Têm esgoto? Não. Têm policiamento? Não. Então por que vocês não vão embora daqui? Eu uso esse exemplo não para malhar o Dicró, que é meu amigo, e sim para mostrar como é o político neste País.
E essa aproximação com bandas de rock e rap?
Foi e continua sendo muito legal. A garotada gosta de mim, fica me elogiando o tempo todo e diz que sou inspirador deles, coisa e tal. Mas acho que não sou nada disso. Acho legal que eles gostem de mim, do meu trabalho, e sempre que sou chamado gravo com eles. Primeiro foi o RPM, depois o Barão, teve o Rappa, os Racionais, o Marcelo D2, enfim, uma pá de mano gente boa que só é um pouco mais novo que eu. Mas como a música é linguagem universal, a gente se entende bem.
Como você vê o samba brasileiro hoje?
O samba não muda. Quem muda são os sambistas. O problema é que a mídia dá um monte de nome para eles. É pagode, sambanejo, samba raiz, uma pá de coisa que não tem nada a ver. Samba é samba no dois por quatro e acabou. Assim como as notas musicais são sete e não tem erro. O resto é modismo que eu nem gosto de falar.
Você tinha uma informação errada sobre o público paranaense. O que lhe falavam daqui?
As gravadoras sempre me diziam que no Paraná ninguém gostava de samba. Que o clima não deixava e as pessoas eram muito frias. Bobagem. Fiz meu primeiro show em Curitiba no ano passado e a casa ficou lotada. Eu me surpreendi com o carinho do povo daqui. Sei que eles conhecem meu trabalho e compram meus discos. Estou pretendendo voltar mais aqui e ainda ir para outras grandes cidades do Estado, como Londrina. Afinal só faltava o Paraná para eu completar o Brasil do Rio Grande ao Acre mostrando meu samba, que graças a Deus é de boa qualidade. Espero que consiga fazer um bom show e que agrade ao público.
E como foi a sua vinda para cá?
Quem me ajuda aqui é o dr. Azor (Jorge Azor Pinto, delegado titular da Delegacia de Furtos e Roubos). Ele é que conhece o pessoal por aqui e está me dando uma força. Eu o conheci no ano passado, quando me disseram que tinha um delegado que era músico e gostava de cantar minhas músicas. Fomos apresentados e já somos grandes amigos.
Show de Bezerra da Silva, na Forum (Rua João Paulo Meque, 80, em Curitiba). Ingressos a R$ 10,00, à venda na loja Sexxes e no local. O show começa a partir da meia-noite. Informações pelo telefone (0+código da operadora+41) 347-4000Sambista considerado pioneiro das letras de música que falam de drogas faz show hoje em Curitiba
José SuassunaBezerra da Silva: Eu não pago para aparecer em programa algum, como acontece na maioria das vezes com os artistas de hoje





