Betti quer lembrar a
tradição percussionista
de Sorocaba
Paulo Betti estava particularmente feliz na semana passada, na noite em que foi recebido pelos sorocabanos, no jantar que oficializou a fase de captação de recursos para seu filme. Chegou ao restaurante ‘‘Daniel’’ de boné, terno e gravata e, num discurso informal e emocionado, explicou que o complemento não era para imitar Spielberg. Acontece que ele está rodando um longa sobre Assis Chateaubriand, então teve que raspar os cabelos para dar a impressão de calvície. ‘‘Andar sem boné fica chato’’, justificou.
O roteiro que se passa entre 1858 e 1942 poderá ter pequena alteração, isto porque Betti gostou das imagens de ‘‘Oriundi’’ mostrando Curitiba. O mesmo poderia acontecer com Sorocaba – da atualidade a narrativa volta-se para a sua história. O enredo fecha-se basicamente no transcorrer da vida de um escravo (João de Camargo), ‘‘pajem de uma família aristocrata da cidade na época’’, que depois de uma visão espiritual, funda uma religião, ergue uma igreja e promove milagres.
Um desses ‘‘milagres’’, segundo o ator deu a entender, foi a própria noite, com mais de 150 pessoas em torno do projeto. Ele citou ainda o longa-metragem ‘‘Não Matarás’’, rodado na cidade nos anos 50, e a proximidade de outro, quatro décadas após. Não deixam de ser felizes coincidências, motivadas para um único fim.
Inicialmente o nome dado ao trabalho era ‘‘Projeto João de Camargo’’. Tudo levava a crer que esse seria o nome do filme, mas Betti trocou por ‘‘Cafundó’’ porque ‘‘significa lá onde o Judas perdeu a bota’’. Seria como a recuperação de uma memória perdida nos desvãos do tempo.
A seguir trechos da entrevista concedida por Paulo Betti.
Para você ‘‘Cafundó’’ começa a se concretizar nesta noite?
Venho acalentando esse projeto há muito tempo, mas acho que ele vai se tornar realidade agora. Concretiza-se um sonho. Estarei rodando o filme ano que vem, se Deus quiser, pela resposta que estou vendo no fenômeno que está sendo este encontro. Quer dizer, um jantar como este, oferecido pela minha cidade para me ajudar a captar recursos para o filme, é uma coisa que me deixa extremamente feliz. Eu acho que agora consigo executar o filme.
Este é o primeiro corpo-a-corpo com os empresários?
Exatamente. Este jantar é mais um teste sobre a realidade econômica, serve para ver se o filme traria pessoas interessadas em investir nele. Pela resposta extra-oficial que tive, acho que vai dar certo.
Como se sabe, os recursos financeiros serão arrecados através das leis Rouanet e do Audiovisual. Você ficará somente entre os empresários paulistas ou irá procurar os de outros Estados?
O roteiro econômico do filme será Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e, em especial, Sorocaba. Nesse eixo, o que a gente conseguir será ótimo. Mas, pelos aspectos de coincidências de que esse filme se compõem, a igreja do preto velho do qual ele trata é a Igreja do Bom Jesus do Bonfim da Água Vermelha. Isso puxa um pouco para a Bahia. Estou vendo se faço uma conexão com alguma cidade ou alguma coisa baiana. Certamente será na área dos batuques, porque Sorocaba tem uma tradição tropeira e outra tradição, meio esquecida, que é a dos tambores. Essa conexão pretendo fazer via Bahia, trazendo experiências de batuqueiros que formam o Olodum, o Neguinho do Samba, o próprio Carlinhos Brown. Quero ver se desperto de novo o aspecto da percussão em Sorocaba.
Afetivamente, o que é este projeto para você?
Para o artista poder contar a história do quintal da sua casa, esse é um prazer maior. Vou contar uma história do quintal da minha casa, onde minha mãe enterrou meu umbigo no galinheiro para pegar amor pelos animais.(Z.C.L.)

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