Beto Brant fala de 'O Invasor'
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sexta-feira, 23 de agosto de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
Disputando espaço em Londrina com ''Minority Report'', de Steven Spilberg, o filme ''O Invasor'', de Beto Brant, conquista um horário no Cine Catuaí 5, das 19 horas, em Londrina. O filme reflete a ascensão do cinema brasileiro, a maturidade da produção nacional e o avanço tecnológico contribuindo para um padrão estético refinado. No entanto, a escalada por um lugar ao sol é desgastante. Os cineastas brasileiros precisam enfrentar os dissabores da distribuição, a falta de recursos para promoção do filme e o jogo massacrante e desleal da exibição, disputando espaço com as distribuidoras americanas. Na contramão, o terceiro longa-metragem de Beto Brant está há quase cinco meses em cartaz em São Paulo.
Com uma produção modesta, usando o mínimo de recursos para extrair o máximo de efeitos, ''O Invasor'', de Beto Brant, tece um painel da violência urbana atual. Uma espécie de Lei de Gerson atualizada. Anísio (Paulo Miklos), o invasor da história, ganha empatia imediata do público ao penetrar no mundinho aburguesado dos engenheiros Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges). Eles pagaram a Anísio para fazer o serviço sujo, matar o sócio prepotente Estevão (George Freire).
Espaçoso, o matador se envolve com Marina (Mariana Ximenes), ninfeta filha de Estevão, e a leva para conhecer o crepúsculo da periferia. Abandonada, orbitando nas mãos do namorado, Marina abre as portas da elite, facilitando a invasão de Anísio. Com um final em que o espectador se torna editor do filme, a sacada de ''O Invasor'' é propiciar discussões, debates e troca de idéias. Ninguém sai imune da sala de cinema.
As imagens granuladas e de luz soturna contribuem para o clima desconcertante do filme. A câmera se movimenta sem escrúpulos e devora as máscaras dos personagens. As locações aproximam propositadamente a trama de um documentário. Sem maquiar ambientes, Beto Brant mais uma vez transita pela violência, impunidade, falta de moral e a corrupção. A relação de consumo fácil, aliada à ausência de afetividade entre os personagens incomodam.
Dentro do projeto Sessão Brasil, de produção executiva de Caio Cesaro, o diretor Beto Brant conversou com a comunidade universitária londrinense na manhã de sexta-feira sobre detalhes da produção e caminhos do cinema nacional. Na platéia, muitos aspirantes a atores de cinema esperavam uma chance para um próximo filme. A cada aparição do gênero, o diretor revelou que o assédio de novos atores acontece. Visivelmente cansado de falar sobre o filme desde o lançamento em abril, Beto Brant concedeu entrevista à Folha2, logo após o debate no auditório do Cesa, na Universidade Estadual de Londrina. A seguir, trechos da entrevista com o cineasta paulista Beto Brant.
O filme custou R$ 700 mil (mais R$ 300 mil em serviços). Fazer cinema no Brasil com essa verba o credencia a dar aulas de economia?
Tenho dois sócios na produtora (Renato Ciasca e Bianca Villar) que cuidam dessa parte. Fazer esse filme foi uma espécie de ''ação entre amigos''.
A temática violência está presente nos seus filmes anteriores (''O Matador'' e ''Ação Entre Amigos''). Por que se repete novamente?
A dramaturgia com o Marçal Aquino (escritor e colaborador assíduo de Brant) não se preocupa em exibir atos de violência. A preocupação está nas razões do agressor e a sociedade brasileira tem muitos agressores.
A escolha do final foi muito discutida?
O filme não te alivia, termina esse episódio e muitas perguntas ficam em aberto. Há questionamentos dos limites éticos e o público se posiciona diante dos personagens. O Anísio, de figura empática, acaba com uma truculência asquerosa. Alguém que consegue te ganhar pelo carisma, de repente te trai. Isso gera um desconforto.
Você percebeu uma maturidade na indústria cinematográfica brasileira desde o primeiro filme que você realizou até ''O Invasor''?
Há um encaminhamento para a organização da classe cinematográfica, com a criação da Ancine (Agência Nacional de Cinema). Em São Paulo está se estruturando uma distribuidora como a Riofilme, do Rio de Janeiro. A forma de produção ainda é cruel. É preciso ajeitar projetos para que não ofendam o status quo das empresas patrocinadoras. A maioria do público vai ao cinema porque viu comercial na tevê, tem souvenir, o que torna muito desigual o lançamento. Não temos fôlego para competir igual. Mas ''Os Matadores'', quando passou na TV Globo, teve altos índices de audiência chegando a 30 pontos, no horário das 23 horas. Isso porque há interesse do grande público em filmes nacionais e também porque ele não tem acesso ao ingresso de R$ 11 da sessão de cinema.


