Enquanto a maioria das gravadoras aposta suas fichas em coletâneas de música brasileira tipo exportação de olho nos turistas da Copa do Mundo, Maria Bethânia faz um movimento inverso para dar voz a um País interiorano, sertanejo e indígena. "Meus Quintais", 51º álbum da intérprete lançado pela Biscoito Fino, acaba de chegar às lojas com um repertório inspirado na infância e adolescência vividas por ela em Santo Amaro da Purificação, cidade do recôncavo baiano.
Temas folclóricos, canções sertanejas, samba de roda e canções saudosistas compõem o repertório do novo CD. Em entrevista coletiva realizada pela internet, Maria Bethânia explicou como surgiu a ideia de gravar o CD. "Eu não pensava em gravar um disco agora. Queria fazer somente no ano que vem, quando completo 50 anos de carreira. Mas senti um desejo de cantar o caboclo, o índio, o dono da terra. Foi uma ideia pequena mas que me impulsionou", revela.
Chico César foi o primeiro compositor a ceder canções para o novo CD. Entusiasmado com a iniciativa da baiana, ele compôs especialmente para o disco "Xavante" e "Arco da Índia Velha". Bethânia conta que logo que a imprensa divulgou que ela havia pedido canções ao compositor paraibano, recebeu em e-mail de Adriana Calcanhotto. "No assunto do e-mail ela colocou: ciúme de Chico César. Achei aquilo bonito, então liguei para ela e a convidei para fazer canções para este trabalho", revelou aos risos. Atendendo ao convite da santo-amarense, a gaúcha compôs a faixa "Uma Iara", que no disco é complementada com a leitura de um trecho do poema "Uma perigosa Yara", da escritora Clarice Lispector.
Já habituê dos disco da cantora, o baiano Roque Ferreira assina cinco das 14 faixas do disco: "Folia de Reis", "Imbelezô Eu" e "Vento de Lá"; "Alguma Voz" (em parceira com Dori Caymmi); "Candeeiro Velho", (com Paulo César Pinheiro), "Casa de Caboclo" (com Paulo Dáfilin). No quintal de Bethânia também há espaço para novatos. O compositor carioca Leandro Fregonesi é autor do samba "Povos do Brasil", de temática indígena.
Entre as regravações, além de "Alguma Voz", que foi lançada por Dori Caymmi em seu recente disco "Setenta Anos", Bethânia imprime sua personalíssima assinatura vocal em "Moda da Onça" (Paulo Vanzolini), que já havia sido gravada por Raul Seixas e Inezita Barroso, de quem a baiana se assumiu fã e telespectadora do programa (Viola, Minha Viola) apresentado por ela na TV Cultura. A baiana também regravou "Mãe Maria" (Custódio Mesquita e David Nasser), que já havia cantado no disco "Pássaro da Manhã" (1977) e "Lua Bonita" (Zé do Norte e Zé Martins), que, segundo a intérprete era uma das canções preferidas de sua mãe.

D. CANÔ
A cantora também comentou sobre uma das fotos do encarte do disco em que D. Canô aparece recostada em seu ombro. "Foi na missa de aniversário de 100 anos de minha mãe. O santuário de Aparecida fez a homenagem mais bonita e que ela mais esperou, que era a visita da imagem de Nossa Senhora Aparecida a Santo Amaro da Purificação. Estávamos muito comovidas naquele dia e o Gringo Cardia (artista gráfico) fez esse presente colocando os versos de Dindi ao lado da foto", afirmou referindo-se ao trecho "E o vento que rola nas folhas contando as histórias que são de ninguém, mas que são minhas e de você também".
Os arranjos sóbrios de "Meus quintais" tiveram concepção coletiva. O casting conta com músicos já renomados, como o pianista André Mehmari (que acompanha Bethânia em "Alguma Voz", faixa que abre o disco) e Wagner Tiso (que toca piano em "Dindi"), além de jovens talentos.

Maestro
Bethânia explicou o motivo do rompimento com Jaime Alem, maestro que assinou a direção musical de seus discos e shows por mais de 30 anos. "Tivemos momentos extraordinários de muita alegria, mas como tudo na vida uma hora muda. Acabou como tudo na vida acaba. Feliz para ele que está fazendo umas experiências lindíssimas com violas. E eu, por outro lado, poder dizer: eu penso o arranjo. Não quero que ninguém pense por mim", argumentou.
Questionada se "Meus Quintais" seria uma novo "Brasileirinho" (aclamado disco lançando em 2003), Bethânia afirma não haver conexões entre os dois trabalhos. "Brasileirinho é o Brasil. Quintal é meu, uma coisa pequenininha, uma coisa pessoal. É outra praia", afirmou. Ela aproveitou para enaltecer o quintal em que foi criada. "Quintal é onde se aprende absolutamente tudo. Quintal é onde aprendi a água, o vento, o silêncio, o cantar, o namorar. E ter um irmão como Caetano para brincar no quintal é show" , enfatiza.

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