E pensar que ele chegou a achar que tinha vocação para padre. A influência principal vinha da família que chegou a matricular Marcus no Seminário Vicente Palotti, em Londrina, onde permaneceu dos 10 aos 17 anos. Bons tempos, como faz questão de frisar. Foi na instituição que ele entrou em contato com a música e teve acesso a discos de estilos variados da música sacra ao popular. Aprendeu a tocar violão, destacava-se nas missas e, principalmente, quando recebia visitas ou participava dos encontro de jovens em que o assédio feminino era muito bem recebido. ''Nunca fui santo. As menininhas vinham para cima de mim porque cantava e tocava violão'', lembra. Por essas e outras, como relembra, virava e mexia era repreendido pela direção do seminário. ''Sempre fui fascinado pelo palco. E a intuição me dizia que um dia chegaria lá''.
E daí que a vocação para padre foi sendo amortizada. ''Com 14 ou 15 anos sabia que não tinha vocação, mas havia a pressão da família para eu ficar. Mas aos 17 anos peguei minha mala e comuniquei aos padres que estava indo embora''. A família, principalmente a mãe, ficou decepcionada. Passado o susto, veio a ordem: para manter-se precisava trabalhar. O primeiro emprego, foi numa livraria e durou apenas seis meses. Conversando com alguns músicos decidiu cantar na noite de Londrina.
Aí entra o lado mais irônico: o primeiro local em que tocou foi no extinto Sereno, um dos redutos mais boêmios de Londrina. ''Era uma discrepância total eu, um ex-seminarista, tocando num ... bar daqueles'', diz ele entre fartas gargalhadas. E daí vieram outros bares, bailes. Três anos de noitada em que cantava de tudo. ''O repertório ia de Milton Nascimento a Odair José'', informa.
Corramos a fita. Chegou um dia em que Marcus viu que o espaço em Londrina estava saturado e era hora de partir para outro canto. O exterior estava nos planos, mas nenhum país específico. Aí, em 88, bela tarde, Maria Bethânia deu o clique que faltava. Em uma entrevista a Leda Nagle, a intérprete baiana contava da boa recepção que teve em Portugal. Pronto, era o país para onde Marcus, a ex-namorada e sua prima foram de mala e cuia. Lá, tinha como referência um conhecido. E de cara encontrou-se com um grupo de brasileiros que o levou ao Yellow Submarine, bar localizado na cidade de Caiscais.
Lá deu uma canja, agradou a clientela e até alguns integrantes de uma banda sueca que tocava por lá. Pronto: ganhou um contrato para ser uma das atrações do bar, frequentado por artistas da nata portuguesa como Ruy Veloso e Jorge Palma, entre outros. E os contatos começaram. Em pouco tempo, Marcus ganhava visibilidade graças a participações em programas de televisão.
O primeiro disco, em vinil, foi gravado em 91. Era um compacto duplo que a gravadora Disco Set fez como material de divulgação. De um lado, uma lambada, o ritmo mais em evidência no Brasil na época. As rádios começaram a tocar e teve início a trajetória do artista londrinense em direção ao sucesso. Marcus conseguiu, enfim, uma estabilidade financeira que dificilmente iria obter no Brasil. ''Tenho uma boa situação'', diz sem cair em detalhes. Casado há cinco anos com Renata, portuguesa, é pai de Bárbara, de sete anos. ''Só tenho que agradecer aos portugueses'', diz ele com um leve sotaque lusitano. (A.M.J.)

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