Bethânia comemora aniversário em show
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quarta-feira, 16 de junho de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 17 (AE) - São os três últimos dias para quem quiser assistir ao show A Força Que nunca Seca, de Maria Bethânia, no Palace, em São Paulo. Ela canta ainda na casa de Moema de amanhã (18) a domingo. Depois sai em turnê. Pelos palcos, descobrindo as cidades - mais um dia, mais uma cidade -, despedindo-se sem jamais dizer adeus - como dizem os versos de "Na Carreira", fanfarra circense de Edu Lobo e Chico Buarque, canto de amor à cena e à felicidade de estar ali. É a música que encerra cada récita.
Amanhã (18) é aniversário de Bethânia. Estará comemorando com a platéia os assumidos e maduros 53 anos, quase 40 de carreira, número equivalente de discos lançados: história de coerência, voz a que o tempo emprestou mais cores, mais matizes, mais sugestões, sem dela suprimir a força da indignação
o arroubo passional, a espontaneidade da entrega.
A Força Que nunca Seca é uma canção dura, quase seca, só quase, de Chico César e Vanessa da Mata, um canto de esperança apesar de tudo, de fé: o esforço de encontrar a água é o esforço da conquista da vida, versos contundente de uma letrista jovem. Bethânia teve sempre o cuidado de dar aval a jovens nos quais acredita (não com a preocupação de dar aval, mas de indicar: vejam, ouçam). Por outro lado, jamais deixa de lado o passado, a história, os versos e canções que tornaram possível o surgimento dos jovens poetas e compositores.
Assim, A Força Que nunca Seca tem novidades, mas história um tanto da música brasileira, de Villa-Lobos e Ascenso Ferreira a Suely Costa e João do Valle. Em algums momentos, a história da música brasileira confunde-se com a sua, é apenas fato.
Neste show, que é no mínimo um dos três melhores de sua carreira, Bethânia trabalha com o antigo cúmplice de 30 anos, o diretor Fauzi Arap. Trabalharam juntos em vários grandes momentos (aqui, ela retoma uma sequência musical do famoso espetáculo "Rosa dos Ventos", de 1971) e, depois de um tempo separados (mas, na verdade, nunca totalmente separados), voltaram à parceria explícita há três anos.
Outra presença constante nos palcos e discos de Maria Bethânia é a do violonista e arranjador, e também compositor, Jayme álem. A parceria vem de 1981. "Entrei num show de Bethânia pela porta, não diria dos fundos, do lado", lembra o músico. Bethânia estava montando o show Nossos Momentos, com direção de Gilberto Gil. O diretor quis em cena uma grande orquestra e um coro de quatro vozes. Jayme álem, músico até então dos bailes da vida, foi convidado pelo quarteto para fazer os arranjos vocais. Gilberto Gil gostou dos arranjos e, quando o show foi remontado, para viagem ao exterior, álem substituiu o guitarrista Ricardo Silveira.
Hoje tem 47 anos e um filho musical, Tomás, que no momento - aos 14 anos - está mais interessado em futebol. É coisa da idade. Poderá ser músico. Durante alguns anos, Jayme foi diretor musical dos espetáculos, de Bethânia, eventualmente fazendo arranjos para os discos. A partir do disco "Maria", de 1988, passou a ser o arranjador único, para todas as instâncias.
Por sinal o grande sucesso do disco "Maria" foi "Verdades e Mentiras", música e letra de álem (de quem Elba Ramalho gravou "Nos Caminhos de Cuba" e "Os Girassóis da Baixada". Morando no Rio há quase 30 anos, o violonista vem de família mineira; nasceu - por acaso, por força de um deslocamento profissional do pai - em Franca, interior de São Paulo, teve infância mineira, adolescência no Vale do Paraíba.
Profissionalizou-se no Rio, numa época em que Caetano Veloso e Gilberto Gil voltavam do exílio, com forças tão musicais quanto políticas - o mesmo com Chico Buarque - e Jayme álem achava suas composições inocentes, interioranas. Tímido - e intimidado - não as mostrava.
Tem 400 composições e pretende fazer um disco, em breve: talvez dois. Para mostrar o sotaque interiorano, que hoje, afinal, impregna a música de Maria Bethânia. Por influência dele? "Eu não diria isso, ela sempre teve o olhar carinhoso para o interior, sempre foi preocupada com as vozes brasileiras." Ele não diz, mas é certo que a sonoridade dos discos de Bethânia ganhou um cheiro (e sabor) de terra a partir do momento em que ele se tornou o único arranjador. O mínimo que se pode dizer é que houve, ali, o encontro de almas complementares, sensibilidades em sintonia: nada é por acaso. Um dia, diz Jayme álem, ele vai voltar para o interior e deitar na rede. Daqui, fica a torcida contra: que ainda demore bastante. Maria Bethânia. Sexta e sábado, às 22 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 30,00 a R$ 70,00. Palace. Alameda dos Jamaris, 213, tel. 531-4900. Até domingo.


