Bethânia canta e desencanta
Antônio Mariano Júnior
Vai cair do cavalinho quem, por antecipação, pensou que só porque colocou seus estridentes vibratos em É o Amor, de Zezé di Camargo, Maria Bethânia voltaria ao mundo fonográfico com um produto obviamente romântico e facilmente digerível. Algo na linha de As Canções Que Você Fez Pra Mim, de 94, em que ela deitou seu canto forte para resgatar memoráveis canções dos atualmente insípidos e esteticamente falidos Roberto e Erasmo Carlos. Pois bem, É o Amor é a terceira faixa do mais novo trabalho de Maria Bethânia - A Força que Nunca Seca (BMG). Gravar essa cançãozinha deve ser interpretado como mais um deslize do que propriamente uma ousadia que Bethânia comete em trinta e tantos anos de carreira.
É o Amor, mesmo revestida de piano acústico, harpa e cordas e coisa e tal, nada mais é que uma faixa comercial, feita para tocar nas novelonas da vida e alavancar a venda de A Força Que Nunca Seca, um trabalho difícil, denso. Que não fosse pela força descomunal do timbre marcante de Bethânia poderia ser um disco que beira à chatice.
É um disco conceitual. Uma visão do Brasil rural. Um ato visionário decodificado através de algumas belas canções, cantadas - uma ou outra - com arrebatada emoção como é de praxe de Bethânia. Conceitos precisam ser respeitados mas não podem estar isentos de questionamentos, principalmente estéticos. A visceralidade da grande senhora da MPB foi momentaneamente arquivada para dar vazão a um trabalho cercado de pompas e circunstâncias.
ReproduçãoRegravar É o Amor é mais um deslize do que uma ousadiaE é aí que reside o X da questão: pompa e circunstância que acabam deixando o disco um tanto quanto pesado. Há uma Bethânia (quem diria, hein!) emocionalmente mal resolvida. Ou seja, a melhor intérprete do País, conhecida por ser uma habilidosa caçadora da dramaturgia das canções, traz à tona um trabalho, se não cerebral, ao menos privado de maiores emoções. E olha que o romantismo permeia todo o disco.
É bom que se frise: A Força Que Nunca Seca não é um trabalho previsível. Ao contrário, dá margens a diversas interpretações. Merece, claro, ser ouvido com leve ou redobrada atenção, aí a imposição de força fica por conta do freguês. Pelo sua concepção de um Brasil rural ou pós-interioriano, Bethânia merece palmas. Mesmo repaginando clássicos como Luar do Sertão ou Romaria (com direito a participação vocal de alguns monges), já saturadas por causa das regravações, ela até consegue fugir da obviedade ao desenvolver um conceito tão abrangente que pode, em palavras mais simples, ser classificado como uma visita de alguém importante ao interior do Brasil.
Bethânia não realizou um inventário da riqueza musical do Brasil. Não dividiu e cantou o Brasil musicalmente em Norte, Sul, Leste, Oeste. Nada disso. Preferiu ela lembrar o lado interiorano que todos nós temos - sim, todos temos e não adianta se negar a descer do salto - num canto qualquer da alma. E nesse contexto é perfeitamente cabível a regravação de As Flores do Jardim da Nossa Casa, de Roberto e Erasmo, que ela canta sem maiores firulas. Não adianta espernear porque o tal Rei em alguma época de nossa vida marcou presença.
Se essa é uma das faixas que permite o ouvinte abster-se de maiores elucubrações conceituais que Dona Maria imprimiu ao seu novo disco, há outras que vêm para instigar, encantar, tolerar e, sim é possível, emocionar não necessariamente nessa ordem. A Força Que Nunca Seca abre com Trenzinho Caipira, cuja música de Villa-Lobos ganhou letra de Ferreira Gullar, com direito à citação de trechos do poema O Trem de Alagoas, de Ascenso Ferreira. Belo começo.
De Marisa Monte e Carlinhos Brown, Bethânia gravou a inédita Eu Queria Que Você Viesse, a quinta faixa do disco. Uma agradável toada. Agora, é impossível não ficar caçando as faixas românticas em se tratando da rainha das canções românticas. E no miolo do disco, há a divina Resto de Mim (Roberto Mendes - Ana Bausbam), a melhor e mais bonita faixa do disco.
Laivos de visceralidade podem ser encontradas também em Cacilda (José Miguel Wisnik) que compõe a trilha sonora do espetáculo teatral homônimo, em que José Celso Martinez Corrêa dá sua visão sobre Cacilda Becker. Fica assim: A Força que Nunca Seca pode ser um disco difícil mas não impossível. Pode não trazer Bethânia demasiadamente melancólica. Porém, é muito difícil não se render aos seus encantos. No fundo, no fundo a intenção de A Força Que Nunca Seca até que é das melhores...





