Sem dinheiro. Sem edição. Sem roteiro. Sem classe. Mesmo com essa lista de atributos negativos, o programa humorístico ‘‘Achados & Perdidos’’, criado em Curitiba por uma cooperativa de artistas com pouca experiência profissional e veiculado semanalmente em circuito estadual pela Rede Independência de TV (RIC), está completando sete meses de exibição ininterrupta e atinge índices de audiência que já incomodam as grandes redes.
O grupo ‘‘M. Rockenbach e Os Abduzidos’’ apostou na fórmula barata – e, por sinal, bem-sucedida – do besteirol, da sátira e paródia a artistas e programas de sucesso da TV. Há ainda uma pitada de crítica social, mesclada com shows musicais, pequenas esquetes e quadros baseados em situações cotidianas.
Exibido em um horário ingrato – por volta das 23h30 de sábado–, o programa obtém média de 4.5 pontos de audiência e já é um dos mais assistidos da rede de emissoras no Estado. Em fevereiro, bateu os 8.6 pontos, ficando em segundo lugar, atrás apenas da líder Globo.
A popularidade está sendo traduzida em uma média de 20 e-mails por semana e já originou até um fã-clube (que atende no e-mail achados.faclube @ig.com.br), criado há dois meses. A pequena platéia do estúdio da emissora, com 70 lugares, costuma lotar durante as gravações, nas sextas-feiras à tarde. Segundo Mauro Rockenbach, 39 anos, coordenador do grupo e apresentador do programa, estão sendo analisadas duas ‘‘consultas’’ de redes que querem exibir o ‘‘Achados & Perdidos’’ em cadeia nacional.
As gravadoras também já despertaram para o sucesso do programa. Bandas e conjuntos locais enfrentam uma fila de espera e estrelas como os grupos As Meninas, Molejo e Biquini Cavadão já sentaram no colchão do ‘‘Achados...’’ – uma paródia aos famosos sofás de programas de variedades. Também já há merchandising: do Free Shake, alimento dietético produzido pela empresa Nutrinat, de Curitiba. Durante a gravação, uma garota-propaganda prepara o cereal com leite no liquidificador e o distribui, em copos de plástico, a convidados e platéia.
A equipe do programa é formada por 12 pessoas. O elenco, no entanto, é composto exclusivamente por homens. Com tipos físicos diversos – como o negro, o anão, o gordo –, os oito artistas se revezam em dezenas de personagens, boa parte deles femininos. ‘‘Humor se faz com a cabeça, não com a bunda’’, ironiza Luiz Carlos Espínola, 47 anos, o ‘‘Bromato’’, referindo-se à profusão de mulheres seminuas nos demais programas humorísticos.
O escracho de ‘‘Achados & Perdidos’’ se inspira em programas como o ‘‘Perdidos na Noite’’, que Fausto Silva comandava na Bandeirantes antes de ser contratado pela Globo. Outra boa fonte é o grupo inglês Monty Phython, mundialmente famoso pelos filme de paródias nonsense a episódios históricos.
Além de ser resultado da falta de dinheiro, a pobreza cenográfica tem um aspecto intencional, segundo o grupo. ‘‘Os programas de humor são muito estéticos, com figurinos e cenários ricos. Essa não é a realidade brasileira’’, teoriza Rockenbach. ‘‘Achados & Perdidos’’ não tem orçamento e não paga salário à equipe de produção e ao elenco. Figurinos e adereços são fruto de doação.
A justificativa para a falta de edição e de roteiro é a intenção de não comprometer a ‘‘espontaneidade’’. A gravação leva uma hora – exatamente a duração do programa. A primeira edição, que foi ao ar em 4 de dezembro do ano passado, custou R$ 10,00. De lá para cá, fora o sucesso que desponta, pouca coisa mudou. O custo de um programa como o ‘‘Casseta & Planeta’’ pode ultrapassar R$ 100 mil por edição.
• ‘‘Achados & Perdidos’’ é exibido aos sábados, pela Rede Independência de Comunicação, com emissoras em Curitiba, Londrina, Maringá, Cornélio Procópio e Toledo. O horário, por volta das 23h45, varia conforme a programação nacional da Rede Record.

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