Curitiba, 20 (AE) - Domingo surgiu finalmente o primeiro grande espetáculo da Mostra Oficial do 9.º Festival de Teatro de Curitiba, "Anjo Duro", que marca a volta aos palcos, após afastamento de 25 anos, da atriz Berta Zemel. Numa interpretação meticulosamente elaborada e iluminada pelo talento de grande intensidade e raro domínio técnico, Berta arrancou um longo e emocionado aplauso do público. Com texto e direção de Luiz Valcazaras, "Anjo Duro" - monólogo que tem como personagem a médica Nise da Silveira, que revolucionou as técnicas de tratamento psiquiátrico no Brasil - estréia dia 28 de abril no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Optando por uma narrativa não-linear, a peça conta um pouco da vida pessoal, do trabalho e, sobretudo, do pensamento da médica nascida em Alagoas que trocou choques elétricos e camisa-de-força pelo trabalho artístico para ter acesso ao inconsciente de pacientes como Bispo do Rosário e Fernando Diniz
mais tarde reconhecidos pela qualidade de sua criação. Sem medo de pôr o pensamento em cena e sem, com isso, sacrificar a empatia e a simplicidade, Valcazaras abre o espetáculo com os diálogos entre a dra. Nise e o filósofo Spinoza.
Por meio das cartas escritas pela médica a Spinoza, base do texto, o espectador - com quem ela passa a falar como se fosse ao filósofo - vai tomando conhecimento dos fatos mais marcantes de sua vida: a relação com o pai, que lhe ensinou a dar importância à "arte de pensar", o temperamento forte demonstrado já na faculdade de medicina, na qual era a única mulher entre 157 alunos, o choque ao deparar com o sofrimento nos hospícios, a prisão durante o Estado Novo, onde se tornou amiga de Graciliano Ramos e até sua relação muito especial com os animais.
A importância do trabalho da dra. Nise e, sobretudo, seu pensamento e atitude foram a principal motivação para a volta de Berta aos palcos. "Por que uma atriz tão talentosa parou de fazer teatro por tanto tempo?", perguntavam-se os espectadores, em voz alta, na saída do Teatro Paiol, ontem (19), após saber da longa ausência pela própria atriz, nos agradecimentos finais. "Porque o palco merece uma motivação maior que a vaidade pessoal", disse Berta, em entrevista.
A atriz formou-se pela Escola de Arte Dramática em 1956 e no mesmo ano estreou profissionalmente no papel de Ofélia, na memóravel montagem de "Hamlet", na qual contracenou com o ator Sérgio Cardoso. "Entre outras coisas, uma atriz precisa ter sorte", diz. E saber aproveitá-la.
Ao ganhar um Prêmio Molire pela peça "Milagre de Ann Sullivan", viajou para a França, onde assistiu a mais de 40 espetáculos. "Muito metida, voltei com a certeza de que nosso teatro era muito bom", lembra. Produziu uma montagem, "A Vinda de Messias", e ficou 20 anos viajando pelo Brasil num caminhão. "A companhia chamava-se Messiasmas a gente chegava e todo mundo dizia: lá vem o teatro móvel."
No fim da excursão, abriu a Fábrica Escola de Teatro em São Paulo. "É um curso livre, o aluno pode passar dois meses ou dois anos", diz. Ao palco não voltou, mas fez algumas novelas, entre elas !"Vitória Bonelli, de grande sucesso. Na escola, sociologia e filosofia são conhecimentos tão importantes para o ator quanto dramaturgia ou técnicas de Stanislavski. Lá, Berta conheceu Valcazaras, na época com pouco mais de 20 anos - hoje ele tem 38 -, recém-chegado de Itapeva (SP).
Desde então, jamais perderam contato. "Há quase 20 anos quero levar Berta ao palco", diz Valcazaras, que considera "Anjo Duro" sua primeira direção profissional, após muitas montagens no Teatro Universitário da Universidade de São Paulo (Tusp). Em 1994, ele conheceu o ator Rubens Corrêa no Festival de Teatro de Ribeirão Preto. "Ele apresentava Artaud e eu, um espetáculo sobre a morte dos índios ianomâmis", conta. "Seria o meu último espetáculo, havia desistido de fazer teatro e ele mudou minha decisão."
Quando soube da morte do ator, em 1996, decidiu homenageá-lo e, a partir daí, tudo convergiu para a dra. Nise. Afinal, "Artaud", o inesquecível monólogo de Rubens Corrêa, foi criado especialmente a pedido da médica.
Valcazaras conheceu pessoalmente a dra. Nise, leu toda sua obra e passou dois anos trabalhando o espetáculo. "Recebi convites para apresentá-lo antes, mas era muito grande a minha responsabilidade, pela importância e amplitude do tema e por trazer Berta de volta aos palcos."

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