São Paulo, 23 (AE) - Começa com a imagem de Manuel correndo para o mar no desfecho de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", ao som da música de Sérgio Ricardo. Traz muitas imagens do Cinema Novo, até mesmo de outros filmes dirigidos por Gláuber Rocha. Mostra protestos estudantis contra a ditadura militar e mulheres que marcaram o cinema brasileiro. Leila Diniz é evocada na Praia de Ipanema, grávida a ponto de quase parir, de biquíni. O País nunca mais foi mesmo depois que ela libertou as mulheres de sua geração.
São imagens do documentário "Sobre Anos 60", de Jean-Claude Bernardet, que terá pré-estréia amanhã (24), às 20h30 no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149, tel. 238-1816). É o 13.º trabalho da série Panorama Histórico Brasileiro. O projeto é do Itaú, com a produtora Dezenove, mas as reflexões sobre os anos 60 são de Bernardet. Nascido na Bélgica, mas brasileiro por adoção, opção mesmo, Bernardet foi crítico de cinema e hoje milita em outros campos, também ligados à atividade cinematográfica. É um intelectual polivante, e sério. Não por acaso, foi indicado para o Prêmio Multicultural Estadão. Além de romancista, é roteirista e diretor. Escreveu roteiros dos filmes de Tata Amaral, "Um Céu de Estrelas e "Através da Janela" (em finalização). Como diretor, fez "São Paulo, Sinfonia e Cacofonia" e agora essas reflexões.
Invertem-se os papéis. Tata foi roteirista de "Sobre Anos 60". "Na verdade, fui pesquisadora com o Jean-Claude; ele me conduziu pelos meandros da sua memória; sabe tudo sobre aquela época." Tata acrescenta que teve uma aula de anos 60 no Brasil com Bernardet. Ele acha que é generosidade dela. Na verdade, era um projeto que Tata devia realizar, mas ela trabalhava na produção de "Através da Janela". Bernardet assumiu o documentário.
A proposta da série do Itaú é levar aspectos importantes da cultura brasileira para um público eminentemente jovem. Bernardet trabalhou pensando em quem não sabia nada, ou sabia pouco sobre aquela época. Os anos 60, a década que mudou tudo. Da pílula e da minissaia que liberaram as mulheres aos protestos estudantis que eclodiram no mítico maio de 68. Do CPC da União Nacional de Estudantes, à UNE, ao Cinema Novo. Não é uma história política, mas uma história cultural, Bernardet faz questão de ressaltar. Uma reflexão sobre as vanguardas brasileiras, sobre o transe de um país.
Bernardet explica: "Tentei fazer o oposto de um documentário didático e expositivo, daqueles que acumulam informações que as pessoas esquecem em seguida; trabalhei basicamente com a emoção." O roteiro escrito com Tata foi só um suporte, porque as reflexões de Sobre Anos 60 formam o tipo do filme que se define na montagem. Nenhuma entrevista, nada de narrador. Só o fluxo de imagens e sons que evocam uma época.
Houve dificuldades sobre direitos autorais. Roberto Carlos não liberou que se usasse o áudio com sua canção que marcou a década - "Que Tudo mais Vá pro Inferno". Problemas levam a soluções. O documentário deve ser pensado a partir de certos elementos: aos estudantes na rua corresponde, como um eco
a pergunta que percorre muitos filmes brasileiros da época. "Onde está o povo?" Na visão crítica de Bernardet, o povo era um mito da classe média. Suas reflexões fascinam.

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