Gramado, 11 (AE) - Dois bons filmes. Era esse o comentário mais frequente na saída do Cine Embaixador, onde são exibidos os competidores do Festival de Gramado. De fato, se "El Dia Que Murió el Silencio", da Bolívia, e "À Sombra dos Abutres", de Portugal, não podem ser considerados obras-primas (longe disso), também não decepcionaram. Ficam acima da média e confirmam a tendência de qualidade para o festival deste ano.
Mas a maior e mais agradável surpresa surgiu entre os curtas-metragens, com o inteligente e delicado "A Pessoa É para o Que Nasce", sobre três irmãs cegas que cantam nas feiras para ganhar a vida, em Campina Grande. Bem-humorado e comovente ensaio de Roberto Berliner. Seis minutos de síntese e prólogo para um futuro longa-metragem que ele prepara com o material recolhido em Campina Grande.
Fora da tela, a política cultural agitou a Serra Gaúcha, com a presença do vice-governador do Rio Grande do Sul, Miguel Rossetto, e o presidente da Rio Grande Energia anunciando a premiação a três longas-metragens gaúchos que estão em diferentes fases de realização.
"Tolerância", de Carlos Gerbase, "Netto Perde Sua Alma", de Tabajara Ruas, e "Concerto Campestre", de Henrique de Freitas Lima, receberam RS$ 1,1 milhão cada. O governo do Estado revelou ainda seu apoio para a realização do 3.º Congresso do Cinema Brasileiro, uma idéia que vem sendo amadurecida entre os diversos segmentos da indústria cinematográfica. A intenção é fazer um balanço real das conquistas atuais, propor o aperfeiçoamento da legislação e construir bases sólidas para a indústria do cinema no País. O congresso está pré-agendado para março.
O boliviano "El Dio Que Murió el Silencio", de Paolo Agazzi, é daqueles filmes que compensam com sua autenticidade a precariedade de recursos com que são realizados. O cenário é um vilarejo perdido no tempo, no interior do país. Sem comunicação, sem energia elétrica, vive voltado para o próprio umbigo, porque não mantém contato com o mundo.
Até que chega um forasteiro e propõe, ao padre e ao prefeito, a instalação de uma rádio local, daquelas do interior, com alto-falante pendurado na torre da igreja, transmitindo música, recados amorosos e algumas fofocas. É o que basta para virar de cabeça para baixo o cotidiano do lugar e fazer com que antigas verdades reprimidas venham à tona. Excelente interpretação de Dario Grandinetti, no papel do radialista Abelardo.
O filme fala de coisas sérias, com bom humor. "Quero que a platéia saia com um sorriso nos lábios", disse Agazzi. Mas, além de trazer bom humor e ironia para a tela, "El Dia Que Murió el Silencio" revelou a primeira musa deste festival, a bonitona María Laura García, que interpreta Celeste, uma garota que vive acorrentada por um pai cruel e ciumento. A moça fez sensação na Serra Gaúcha e já tinha agenda sobrecarregada por entrevistas marcadas. Certamente os repórteres estão profundamente interessados em conhecer as opiniões de María Laura sobre a realidade social da América Latina.
Se "El Dia Que Murió el Silencio" aposta no humor, "À Sombra dos Abutres", de Leonel Vieira, revelou-se um competente thriller político, ambientado na época do salazarismo. Durante a ditadura, os mineiros revoltosos de Trás-os-Montes são perseguidos pela PIDE, a polícia política de Salazar. Três deles tentam atravessar a fronteira da Espanha e, do país vizinho, passar para a França, onde encontrariam asilo. Seco, sem concessões, o filme não deixa cair o ritmo em momento nenhum. Exibe ainda alguns tiques de iniciantes, mas é bem superior ao que se pode esperar de um novato como Vieira. Provavelmente entrará na grade de programação do Canal Brasil, que passará a divulgar também o cinema português.
Amanhã será exibido o último longa-metragem brasileiro em competição, "Por Trás do Pano", de Luiz Villaça, filme de ficção que aborda os conflitos e amores entre o elenco de uma montagem de Macbeth. Será o único longa a ser apresentado nesta noite. A segunda parte do programa foi inteiramente reservada à homenagem que será prestada aos produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto, que receberão o Troféu Oscarito.

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