Berlim - Presente em duas mostras paralelas do 56º Festival de Berlim, o Brasil tem sido lembrado da pior maneira possível na competição. Já existem jornalistas brasileiros pensando em seguir o exemplo dos islâmicos, organizando um protesto em frente ao Palast, como aqui é chamado o palácio do festival. A coisa começou sábado, com o filme ''Partículas Elementares'', que o alemão Oskar Roehler adaptou do romance do francês Michel Houellebecq. Prosseguiu domingo com ''Grbavica'', da diretora da Bósnia Jasmila Zbanic.
O filme alemão conta a história de dois irmãos que vêm de uma família disfuncional. Um deles é cientista e pesquisa formas de reprodução artificial, sem contato sexual. O outro é obcecado pelo sexo. Este último vai a um acampamento cheio de mulheres, na expectativa de se dar. Encontra uma que lhe interessa, mas ela prefere aceitar o convite de outro homem para dançar samba. O personagem fica indignado. Convida-a para um tour pelo Brasil. Quem sabe uma visita à favela, onde garotos morrem na guerra do tráfico. Ou então o contato com uma prostituta que está morrendo de aids? A agressão faz parte do desespero de Bruno, interpretado por Moritz Bleibtreu, que é professor de literatura e, numa cena anterior, já mostrou o pênis para uma aluna.
Por mais que o personagem seja pirado, a referência ao Brasil é desagradável e, parcialmente, injusta. É verdade que existem notícias de uma guerra particular, na qual os jovens morrem no tráfico, mas o Brasil é modelo em controle de aids para todo o mundo. O filme de Roehler está provocando a maior polêmica, mas não exatamente por isso. Há críticos que acham que não é nada; apenas um filme escandaloso sobre relações num mundo em crise de valores. ''Partículas Elementares'' pode ter muitos defeitos, mas tem uma grande qualidade. Você acredita nos personagens. Roehler, que fez antes ''Angst'' (Angústia), sabe expressar o tormento que ronda a alma de seus personagens.
Comparativamente, o filme da Bósnia é melhor. A referência ao Brasil ocorre quando a protagonista conta que viu na TV este documentário sobre um jovem brasileiro condenado a morrer e a quem ninguém presta ajuda. Ela chora por causa dessa violência brutal num país distante, mas na verdade está usando o caso para chorar por si mesma. Pois esta mulher foi estuprada durante a Guerra da Bósnia e teve uma filha. Participa de um grupo de terapia, mas não fala sobre o assunto. Chega agora o momento de falar, porque a filha quer notícias do pai e surge um homem que recoloca para essa mulher que convive mal com a própria sexualidade a possibilidade de renascer, de amar, de voltar a ser uma mulher completa. Jasmila fez um filme forte. Trabalha com duas atrizes excepcionais, Mirjana Karanovic e Luna Mijovic, a mãe e a filha. ''Queria dar um testemunho sobre essa realidade cruel e a violência contra as mulheres'', conta a diretora, que se baseou em depoimentos de vítimas de estupro. Não existem registros numéricos do número de crianças nascidas na Bósnia nestas circunstâncias. Mirjana, a atriz, gostaria que o público de todo o mundo visse o filme, mas preferencialmente os estupradores, a quem, numa cena, ela chama de animais.
Entre um e outro desses filmes, o festival teve o seu momento ''O Tigre e o Dragão''. Todo grande festival ultimamente abre espaço para os filmes de artes marciais. ''A Promessa'', do chinês Chen Kaige, que ganhou a Palma de Ouro por ''Adeus, Minha Concubina'', é o filme mais caro realizado na China. Visual elaborado, grandes cenas de massas, mas o filme parece todo feito em digital, para tentar conter os custos. A história trata de amor, lealdade e traição num período mítico, quando os deuses dialogavam com os homens e lhes davam o direito de escolher o próprio destino. Uma garota que está morrendo de fome escolhe mal. Em troca do seu bem-estar, todos os homens que a amam vão morrer. Surge um que vai tentar reverter o quadro. Ok, Kaige. Mas, Herr Koslick (Dieter Kosslick, o diretor da ''Berlinale''), o que um filme desses faz em Berlim? Nada contra as artes marciais. O problema é Kaige, um diretor ''pompier'', como dizem os franceses. Seu cinema monumental é de um academicismo que, francamente, não cabe em Berlim nem em nenhum outro festival digno do nome.

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