Berlim - Menos de 24 horas antes de o Festival de Cinema de Berlim anunciar o Urso de Ouro, premiação máxima da mostra concedida na noite de sábado, um grupo de alemães recebeu um ônibus de refugiados numa cidade da Saxônia, a 200km dali, aos gritos de "voltem para casa".
A vitória do documentário franco-italiano "Fuocoammare", de Gianfranco Rosi, que aborda a imigração a partir da ilha de Lampedusa, só confirma a emergência do tema que está nas ruas de toda grande cidade do continente: venceu o que captou o "zeitgeist", para usar a expressão alemã para o espírito do tempo.
Vitória justa, mas nada surpreendente no festival de cinema que é o mais politizado entre os três grandes - a Berlim, somam-se Cannes e Veneza.
Neste último, por sinal, Rosi já havia levado o Leão de Ouro por "Sacro GRA" (2013). Naquele contexto, porém, levantou certa suspeita de marmelada: só num festival italiano um documentário tão local, sobre uma região marginalizada de Roma, ganharia o prêmio máximo.
Mas "Fuocoammare" é diferente. Além de transcender fronteiras geográficas ao abordar de forma humanista um tema tão contundente, tem rigor cinematográfico, o que não é regra quando se trata de documentários.
O filme é repleto de quadros bem construídos, plásticos, se preocupa com a luz, com o lirismo das imagens, especialmente nos trechos protagonizados por Samuele, o garoto italiano que é a epítome dos europeus.
O oposto, por exemplo, do americano "Zero Days", outro documentário em competição: esquemático e nada ousado (cheio de repetitivos "talking heads", depoimentos), saiu sem menções, apesar do "hype" do oscarizado diretor Alex Gibney.
Nas demais categorias, levaram troféu principalmente filmes que tratam de identidade (nacional ou religiosa), questão cara numa Europa que virou ainda mais uma colcha de retalhos.
Foi o caso do filipino "Canção de Ninar ao Mistério Doloroso" (estatueta para obras que abrem novas perspectivas), do polonês "Estados Unidos do Amor" (roteiro), do franco-bósnio "Morte em Sarajevo" (prêmio especial do júri) e do tunisiano "Inhabek Hedi" (ator e diretor estreante).
O fato de o prêmio principal ter ido a um documentário em meio a 167 ficções mostra que no velho continente a vida real ganhou contornos tão dramáticos quanto os de qualquer obra da imaginação.

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