A um custo de um milhão de euros - cerca de 3,5 milhões de reais - bancados por três parceiros principais além de duas dezenas de participações menores, e com o indicativo de nuvens escuras da iminente invasão americana ao Iraque pairando sobre o mundo, a 53 edição do Festival de Berlim inaugura hoje a temporada européia de grandes maratonas cinematográficas internacionais. E o diretor do evento, Dieter Kosslick, que há dois anos substituiu Moritz de Hadeln, acusado de privilegiar Hollywood nos últimos tempos de seu longo reinado de 22 anos de mandato, repete a fórmula de seu colega, hoje à frente do Festival de Veneza. Este ano, além de abrir e fechar ''hors concours'' a programação, a intervenção do cinema americano está presente também na principal mostra, exatamente a competitiva, com nada menos do que cinco produções concorrendo aos Ursos de Ouro e Prata, além de outras espalhadas pelas diversas mostras paralelas. Berlim consolida assim sua fama de grande trailer da cerimônia do Oscar, que tem nominações previstas pela Academia para a próxima terça-feira e entrega de prêmios marcada para 23 de março.
Na abertura oficial de hoje, a atração é o musical ''Chicago'', estréia na direção do coreógrafo Rob Marshall, ganhador do Globo de Ouro e uma das mais previsíveis e garantidas candidaturas para o Oscar. E na gala de encerramento, outro peso-pesado na corrida pelas estatuetas: ''Gangues de Nova York'', de Martin Scorsese. Somente os dois elencos já garantem a cota de glamour ambicionada pela frequentemente incômoda, mas afinal necessária porção mundana de qualquer festival. Não é qualquer edição de mostra, por mais prestigiosa, que pode contar com o trânsito de notáveis como Leonardo Di Caprio, Catherine Zeta-Jones, Daniel Day Lewis, Cameron Diaz, Richard Gere e René Zellweger.
Mas o caleidoscópio de atrações que até dia 16 devem frequentar o noticiário globalizado não pára por aí. Também entre os 22 candidatos da seleção competitiva oficial estão nomes credenciados a lotar as entrevistas coletivas. O trio de atrizes de ''The Hours'', por exemplo: no filme de Stephen Daldry ( ''Billy Elliot''), o duelo entre Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman promete bons momentos de interpretação, além do charme agregado. George Clooney é presença garantida, na frente das câmeras no concorrente ''Solaris'', de Steven Soderbergh, e estreando na direção, ''hors concours'', em ''Confessions of a Dangerous Mind''. O filme deve levar a Berlim, além de Clooney, as vips Julia Roberts e Drew Barrymore.
Kevin Spacey e Kate Winslet estão no concorrente ''The Life of David Gale'', de Alan Parker. Edward Norton encabeça o elenco de ''The 25 Hour'', de Spike Lee, também na disputa. Nicolas Cage visou o passaporte, já que tem papel importante (e duplo) em ''Adaptation'', a mais recente extravagância do diretor Spike Jonze (''Quero Ser John Malkovich''), também correndo atrás de um prêmio. Entre os europeus, aparições certas são de Daniel Auteuil, Nathalie Baye, Kristin Scott Thomas e Aitana Sanchez-Gijon.
O Brasil está selecionado na seção paralela ''Panorama'', ao lado de 33 outros longas de ficção, 12 documentários e 23 curtas-metragens. O único representante brasileiro em Berlim é ''O Homem do Ano'', de José Henrique Fonseca. O diretor e os atores Murilo Benício e Claudia Abreu devem ir ao festival pra a coletiva. Entre os eventos paralelos especiais há para todos os paladares, como a competição de curtas, o fórum do novo cinema mundial, e conferências sobre o cinema digital. Mas o destaque é para a homenagem-retrospectiva ao mestre japonês Yasujiro Ozu, comemorativa do centésimo aniversário do lendário cineasta. Sempre apaixonadamente reverenciado pela crítica mundial, as imagens criadas por Ozu, seu estilo único e sua filosofia humanista são com frequência evocados em filmes e ensaios - o farto manancial de textos teóricos a respeito de sua obra dificilmente encontra paralelo entre outros realizadores, em toda a história do cinema.
No júri de longas estão os cineastas Atom Egoyan, Katherine Bigelow e Abderrahmane Sissako, as atrizes Anna Galiena e Martina Geder, o produtor Humbert Balan e o diretor do Sundance Film Festival, Geoffrey Gilmore.

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