São Paulo, 22 (AE) - Buscar uma estética do mal ou desmistificar o mal? Para o ator inglês Steven Berkoff, a pesquisa cênica de "Os Vilões de Shakespeare", que ele apresenta nesta quinta e sexta à noite no Teatro Alfa, parece trilhar os dois caminhos. Ao mesmo tempo em que examina a natureza da maldade nas peças do maior dramaturgo inglês, ele também ri dos clichês recorrentes em torno dos personagens maus de Shakespeare.
"O mal significa uma ação negativa, é uma resposta negativa a alguma situação", definiu Berkoff. "O mal é uma manifestação de rígida adesão à superstição", emenda, salientando o outro lado da questão. Berkoff é um dos mais conhecidos one-man-show do teatro britânico. Esteve no Brasil em 1994, para o Festival Internacional de Artes Cênicas de Ruth Escobar. Na ocasião, mostrou justamente "One Man", uma reunião de três peças curtas - uma delas era uma adaptação muito particular do conto "O Coração Denunciador ", de Edgar Allan Poe.
É um jogo de teatro físico no limite, o que propõe Berkoff em cena. Quando esteve aqui, disse que estava à procura de "instintos básicos". Essa procura parecia especialmente clara no esquete teatral Dog, que ele apresentou. Ele era, ao mesmo tempo, um cão pit bull, seu dono ensandecido e transeuntes desavisados nas ruas de Londres. Sem uma palavra.
Diz que tudo que mudou em sua carreira, desde quando tinha 38 anos e escreveu sua primeira peça, "East", até hoje, foi "a cor do cabelo". Às vezes é tido como um expoente do teatro de avant-garde da Inglaterra. Por outras, é visto como um polemista profissional. Ele define a si mesmo como "um estilhaço ao lado do establishment".
Não está à procura de agradar às platéias - especialmente as britânicas. Em entrevista ao jornal "The Guardian", ele disse que os ingleses parecem ter uma espécie de sentimento de culpa em relação ao teatro. "O que quis dizer é que eles se sentem como se tivessem de fazer aquilo (ir ao teatro), mais do que ter paixão por aquilo", explicou Berkoff. "É um pouco como ir à igreja - você faz sua absolvição."
Vilão em filmes como "Rambo 2" e "Octopussy" (da série de James Bond), ele diz que leva a sério tanto a indústria cinematográfica quanto o teatro mais experimental, o que o torna de fato uma espécie de avis rara. "Eu acredito que o cinema pode ser uma forma de arte séria, além de ampliar as platéias - tem a sua função", afirmou.Berkoff nega algumas coisas da sua lenda pessoal. Diz que nunca tentou esganar um crítico de teatro 20 anos atrás, como se crê em Londres. Também acha que não é um sujeito tão difícil quanto alguns pintam. Um de seus colaboradores, o ator Antony Sher, acabou por ampliar essa imagem, ao declarar recentemente que era quase impossível trabalhar ao lado de Berkoff.
"Muitos atores têm se divertido trabalhando comigo, assim como eu com eles", afirmou. "Antony Sher, que eu admiro, expressou sua satisfação quando estavámos no processo de trabalho", recordou. "Por que ele mudou de idéia depois eu não tenho explicação."
"Os Vilões de Shakespeare" é um espetáculo-solo. Discípulo de Marcel Marceau e Barrault, Berkoff tem um domínio raro da expressão cênica. Não escolhe textos pela facilidade. Entre as várias adaptações para palco que criou, dirigiu e apresentou em turnês nacionais e internacionais estão "Metamorfose" e "O Julgamento", de Kafka, "Agamemnon" (baseado em Ésquilo) e "A Queda da Casa de Usher", de Poe.
Berkoff dirigiu e interpretou o papel principal em "Coriolanus", no West Yorkshire Playhouse, em 1995, e no Mermaid Theatre London, em 1996. Em 1997 dirigiu e interpretou a premire americana de "Massage", no Odyssey Theatre de Los Angeles. Alheio à aura de alta cultura, fez em 1998 mais uma produção cinematográfica de quinta categoria," O Legionário, com Jean-Claude Van Damme. "Os Vilões de Shakespeare". Espetáculo do ator inglês Steven Berkoff com base em personagens de William Shakespeare, como Lord Macbeth, Hamlet, Oberon, Iago, Ricardo III e outros. Monólogo em inglês. Coordenação de produção e iluminação: Marcelo Gonzales. Quinta e sexta, às 21 horas. R$ 30,00. Teatro Alfa - Sala B. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000.

mockup