Jayme Matarazzo poderia muito bem ser um típico "filhinho de papai". Membro do famoso clã paulistano e neto da cantora Maysa, o intérprete do Maurício de "Sangue Bom", no entanto, preferiu trilhar seu próprio caminho e batalhar por sua independência artística. Tanto que, depois de sua estreia, em "Maysa – Quando Fala O Coração", de 2009, só emendou trabalhos em equipes diferentes da de seu pai, o diretor global Jayme Monjardim. "É uma das coisas que mais me deixam feliz. Acho que é um prêmio, ainda mais para uma pessoa que quer explorar outras coisas mais para frente, que gosta de direção", vibra.
Foi o desejo de se tornar diretor, inclusive, que o levou para a carreira de ator. Na época estudante de Cinema, Jayme viu na minissérie sobre a vida de sua avó uma oportunidade para exercitar o que vinha aprendendo na faculdade. Além disso, estaria ao lado do pai em um momento importante, já que a produção, escrita por Manoel Carlos, também contava um pouco da história de sua família.
"Topei fazer, mas não queria ficar à toa, não queria ser o filho ali. Queria ser o quinto, o oitavo assistente. Só não queria, do dia para noite, ser um cara que não estivesse trabalhando", recorda.
Mas, diante da dificuldade da equipe em encontrar um ator para interpretar Jayme Monjardim na fase jovem, ele acabou aceitando o convite de encarnar o próprio pai na ficção. "Eu não tinha a intenção de atuar. Foi mais para viver e entender aquela história, homenagear meu pai, minha avó. Nunca foi meu plano", frisa.

Em "Sangue Bom", você interpreta seu segundo protagonista em novelas. Mas, desta vez, divide o posto com outros cinco atores. Alivia a pressão e a responsabilidade?
Eu acho que nunca é um peso. É claro que é uma responsabilidade gigantesca, mas é um prestígio estar à frente de uma história. Não é o prestígio de estar ali como protagonista. Sou muito apaixonado por contar história, de várias maneiras, seja com fotografia, com direção, com música... Aí, você pega esse posto de protagonista, que geralmente é formado por um casal, e aposta em seis jovens, que têm muita disposição de fazer e se sentem felizes. O trabalho fica mais real, mais honesto.

Como você lida, hoje em dia, com a exposição e a fama que um ator que trabalha na tevê acaba tendo?
Nuca tive essa pretensão da fama, nunca lidei com ela de uma forma muito confortável no sentido do quanto ela tira da sua privacidade. Eu sou um cara tímido, caseiro. Mas entendo cada vez mais esse mundo. Eu vivo nesse mundo desde pequeno. Por isso, nunca quis participar muito dele. Eu vi essa coisa da exposição, da fama desde pequeno. Não pelo meu pai, mas pelas pessoas que estavam próximas. Vi gente nascendo na televisão. Quantos caras meu pai lançou que eram promessas e o quanto a vida os modificou. Eu tenho um pouco de receio. Sou muito verdadeiro, muito real. E tudo que se torna artificial me incomoda. Acho que tem muita coisa artificial nesse mundo.

Em pouco tempo de carreira, você tem interpretado perfis de personagens diferentes, como o príncipe Felipe, em "Cordel Encantado", e o grafiteiro Rodinei, em "Cheias de Charme". Como busca se diferenciar a cada papel?
Eu quero, a cada trabalho, me reciclar. O quanto eu serei capaz de fazer isso o tempo todo ou com êxito? Tomara que eu seja capaz. Mas acho necessário. E também acho necessário a gente não ter pudor com a estética. Não pensei duas vezes para raspar o cabelo e ficar com um bigodinho durante sete meses para fazer o Rodinei. O personagem era aquilo. Assim como, hoje em dia, eu sou bem largado no jeito como me visto. E o Maurício é vaidoso. Então, nesses últimos tempos, já me peguei me vestindo melhor, me obrigando a isso porque o personagem vai pensar nisso. E eu preciso dar vida para essas coisas. Precisava não ficar incomodado com a camisa para dentro, com uma gola aqui. E eu sempre odiei usar camisa para dentro. São pequenas coisas, mas que vão me ajudando a entender esses mundos. A gente vai aprendendo a olhar a vida por diferentes ângulos através dos personagens.

Você estudava Cinema na época em que fez uma participação em "Maysa – Quando Fala O Coração". Chegou a se formar?
Faltam 2 semestres. Eu adoraria voltar. Até liguei para o diretor da faculdade e falei: "Sei que não fui um aluno exemplar na minha faculdade" – porque eu já trabalhava – "mas pode ter certeza que fiz uma faculdade da vida real muito sinistra. Eu quero muito acabar o curso, o que eu faço?". Pedi ajuda para saber o que ele achava que tinha de legal no Rio. Na hora que der, volto. Odeio coisa incompleta. Mas tenho certeza do quanto valeu a pena ir para a faculdade real, da vida. O que eu estou aprendendo hoje vai me ajudar tanto no dia em que eu quiser estar por trás das câmaras.

Tem algum projeto nesse sentido?
Tenho vários. Queria muito ter feito um documentário sobre grafite e teria feito agora, quando ainda não sabia que estaria na novela. Comecei a fazer por mim mesmo. A cada encontro que eu tinha com os caras na época do laboratório que fiz para "Cheias de Charme", eu levava a 7D (linha de câmara da marca Canon) e deixava correr. Mas é muito difícil fazer alguma coisa em paralelo com a novela. Eu aplaudo os meus amigos que conseguem fazer teatro ao mesmo tempo.

Falando em teatro, é algo que você tem vontade de experimentar?
Tenho. Já recebi vários convites legais, que fiquei tentado a fazer, mas não deu tempo. Eu tive um mês e meio entre uma produção e outra. Não dá para fazer nada. E eu ainda estava tentando entender essa profissão.

E acredita que agora entende melhor?
Acho que agora eu sei administrar melhor. Sei, com certeza, compreender, lidar e me aventurar melhor. Me sinto cada vez mais seguro, mais capacitado e com mais vontade de aprender, que é o mais legal. Tenho uma segurança de que domino um pouco mais aquilo que faço e que antes era feito no susto. Hoje em dia, é feito um pouco mais na construção. E me sinto orgulhoso de ter tido coragem de enfrentar várias coisas que não eram fáceis, orgulhoso por ter aceitado desafios tão difíceis e saber que fiz eles com verdade. E fiz por mim mesmo. Não fiz para ninguém e nem por nada.


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