São Paulo, 22 (AE) - Dois homens se conhecem num campo de concentração, durante a 2ª Guerra, e iniciam um relacionamento moldado por restrição e violência. Juntos, resolvem que ultrapassarão a circunstância, em busca da plenitude.
O desafio maior do bailarino e coreógrafo Sandro Borelli
ao transportar para a linguagem da dança um espetáculo de teatro ("Bent", do americano Martin Sherman) era esboçar uma série de movimentos que mantivesse intacta essa temática proposta pela peça. Mais importante: que pudesse tratar a homossexualidade com uma abordagem original, sem clichês e sem mistificação.
"Bent, o Canto Preso", que o grupo de Borelli, FAR-15, estreou no Festival de Teatro de Curitiba, no dia 23 de março, conseguiu mais que isso: além de recriar a atmosfera de claustrofobia, medo, ternura, opressão e violência da peça de Sherman (montada no Brasil em 1981 por Roberto Vignatti), cria vocábulos novos dentro do universo da dança.
O terror nazista é evocado por Borelli apenas com símbolos, sem didatismo nem obviedades. O algoz veste preto e movimenta-se mecanicamente. Max e Horst, os amantes, têm movimentos trôpegos e, às vezes, sua atuação tende para o sadismo. Estão em frangalhos, estão encurralados e tentam preservar algo maior do que a sanidade: a capacidade de amar.
É um conceito anti-Leni Riefenstahl, porque Borelli buscou no movimento físico não a glorificação nem tampouco a perfeição. Sob uma iluminação expressionista, os bailarinos exaurem-se em uma movimentação mecânica, forçada, dolorosa.
As expedições punitivas que os nazistas empreendiam entre os prisioneiros homossexuais são sugeridas apenas pela música e pela quebra da rotina de exercícios físicos. "O Canto Preso" é uma outra obra, não é mais "Bent", mas se alimenta da indignação de "Bent" para construir sua odisséia particular.
Antítese - Ao lado do dilaceramento intermitente de Sandro Borelli e do skinhead Ricardo Freire (excepcional profissional de Santo André), duas bailarinas fazem no fundo do palco um espetáculo de contraponto, como antítese da dupla masculina: Cristina Belluomini e Sônia Soares (produtora da montagem).
Pode questionar-se um tanto de sua adequação à cena, mas o solo das bailarinas é extremamente belo e tocante, quase no fim da apresentação. Pode-se questionar também o excesso que representa o ritual coprofágico do final, mas nunca a eficiência da trip de Borelli e Freire.
"Bent, o Canto Preso", seja pela marcação perfeita da trilha sonora e das composições de Sérgio Zurawski, seja pelas expressões massacradas dos rostos dos bailarinos, inscreve-se na galeria dos espetáculos de dança efetivos da temporada. É uma jornada de força e visceralidade.

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