BENDITA SEJA ESSA VONTADE
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de julho de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
A arte no sangue não desaponta. Talvez seja essa a única justificativa para explicar o motivo que leva alguns filhos a optarem pelos mesmos caminhos artísticos dos pais
Que o dom da música, de interpretar e de correr o mundo está no sangue, já diziam nossos avós através do famoso ditado popular filho de peixe, peixinho é. Mas como isso se realiza, às vezes surpreende os próprio pais que, de uma hora para outra, vêem os filhos tocando, cantando, enfim, atuando no palco, camarins e bastidores.
Regina Vogue é mãe de Maurício e de Adriano. Regina e Maurício são almas gêmeas têm a mesma inquietação por conhecer o mundo. A ligação é forte, tem conteúdo e uma grande história.
A produtora e atriz fugiu da casa da avó aos 16 anos com um circo que passava pela cidade de Lages (RS). Eu sempre fui inquieta, queria correr o mundo, aprender tudo, conhecer pessoas. E no interior isso só gerava angústia. Como nunca tive medo de nada, fui até o circo e disse que queria ir com eles. Fiquei sumida de casa, sem dar notícias. Minha família mobilizou até a polícia, lembra.
A felicidade de estar viajando, conhecendo e aprendendo superou todos os obstáculos. No circo fui até toureira, mas não me sentia bem tratata e assim que tive uma oportunidade larguei tudo de novo, conta Regina. Depois de vender o que ainda tinha, foi para Florianópolis pedir emprego no teatro dos Irmãos Garcia da Lima Pereira. Me perguntaram o que sabia fazer e eu respondi que não sabia nada, mas queria aprender tudo.
E assim ela foi admitida como responsável pelos figurinos, adereços e guarda-roupas. Eu dormia num quartinho, com um colchão em cima de uma mala. Vivia rodeada de baús e malas enormes, mas muito feliz. À noite eu experimentava todas as roupas e ficava brincando de atriz.
O primeiro filho, Maurício nasceu em Paranaguá, quando Regina fazia a peça Direito de Nascer. Com poucos meses o bebê estreou no palco no papel de Albertinho Limonta. Daí para a frente não largou mais do palco. Ele dormia nas caixas de roupas e assistiu A Cabana do Pais Tomás, Seu Último Natal, A Dama das Camélias, peças que quero resgatar, adianta.
De três em três meses a família mudava de cidade, casa e escola. O Maurício tem o mesmo espírito meu de andarilho, aventureiro, ousado e inquieto. Hoje trabalhamos juntos. Ele dirige muito bem, é um ator e bailarino excelente. O Adriano, que não pegou esta época tão mambembe, não gosta de palco mas é o nosso administrador. Trabalhamos todos juntos e eu me sinto agraciada com os filhos que tenho, conta sem poupar a corujice.
Seguindo pelo mesmo caminho, o menino João de Macedo Mello, de cinco anos, filho da atriz Christiane de Macedo e do músico Chico Mello, parece já ter escolhido o seu destino. Logo que o João nasceu fomos morar numa chácara em Piraquara e levamos o piano. Como os amigos indo muito lá, todos tocavam e o João foi crescendo assim, conta Christiane.
Aos quatro meses, a única maneira de fazer o pequeno João sossegar era colocá-lo no bebê conforto amarrado numa cadeira em frente ao piano. Ele ficava batendo nas teclas por muito tempo e nós podíamoa tomar café, almoçar e jantar tranquilos.
Com quase dois anos, a família estava almoçando na casa da avó e ouviu alguém tocando Cai-cai Balão. Era o João felicíssimo gritando consegui, consegui. Ele havia tirado a música sozinho. E na família o que todos adoram é vê-lo tocar e depois sair do piano e agradecer a audiência abaixando a cabeça, tão formalmente e sério como faz o pai nos concertos.
Christiane e Chico sempre levam o filho a concertos e peças. Ele fica super quietinho e aguenta firma, sem reclamar. E mais: não fala e não gosta que ninguém fale. Na peça Incendiários, que Christine atuou, João ficou sozinho na platéia e assistiu a todo o espetáculo. Ele dorme tarde, muitas vezes de madrugada, acorda com o pai, quase meio-dia, e adapta-se muito bem ao cotidiano cultural.
No último Natal, João ganhou uma bateria de presente. É fã de carteirinha dos Beatles e da Janis Joplin. Agora ele quer que John Lennon venha no seu próximo aniversário e afirma eu estou muito apaixonado pelo Beatles. Mas só se conformou com a morte da Janeis Joplin, que também queria conhecer, por que a mãe disse que ela estava cantando, tocando e morreu muito animada.
Para tocar rock na bateria, João usa uma peruca de roqueiro. Ele coloca os CDs para tocar e acompanha na bateria direitinho. Aos três anos ele respondeu, quando lhe fizeram a seguinte pergunta: o que você faz rapaz?. O pequeno João respondeu sem titubear: Eu sou compositor e músico.
Para Gabriel Teixeira, guitarrista da banda Black Maria, seguir o caminho do pai, Paulo Teixeira, da banda Blindagem foi natural. O pai conta que não forçou nada, só ia satisfazendo as vontades do menino, que ganhou uma guitarra aos 15 anos.
Quando pequeno, Gabriel acompanhava não só os shows mas também os ensaios. Na década de 70, o pai tocava na banda A Chave e conta que quando os Secos e Molhados vieram apresentar-se aqui em Curitiba, Gabriel ganhou colo da Rita Lee.
Hoje a Black Maria já tem dois CDs gravados e está no auge do sucesso. Para mim é um orgulho, principalmente por não ter forçado nada e por perceber que o Gabriel se supera constantemente, está sempre buscando novos sons e com muita criatividade, gaba-se o pai coruja.


