Ben Stiller, entre os bons da comédia
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Não ligue para o atraso desta estréia no multiplex local em relação às capitais. Entre na sala e descubra em hora e quarenta muito agradáveis uma nova proposta cinematográfica, neste quarto longa-metragem dirigido pelo ator e roteirista Ben Stiller. ''Tropic Thunder'' é o relato das desventuras de um grupo de atores envolvido numa produção de guerra que, em busca de maior verossimilhança e de um castigo para seus egos superinflados, é trasladado para um cenário real onde encontra uma verdadeira e perigosa guerrilha narcotraficante.
É uma produção surpreendente. E não apenas porque Stiller reuniu um elenco excepcional (várias participações especiais não estão creditadas), mas porque ainda oferece notáveis cuidados estéticos, técnicos e narrativos, em demonstração sólida de sua aptidão como cineasta. Ele é de fato bom em passagens de impacto, na planificação das sequências e o que é melhor, na sua crítica ácida e cínica contra o establishment hollywoodiano.
Os principais protagonistas do filme dentro do filme, o tal ''Tropic Thunder'', são três astros da comunidade de Hollywood (Stiller, Jack Black e Robert Downey Jr.). Quem dirige é um realizador inglês (Steve Coogan), com base em livro que narra as experiências reais de um sobrevivente do Vietnã (Nick Nolte). O filme se apresenta paródico (como foram ''O Pentelho'' e ''Zoolander'', de Stiller), mas em pouco tempo se afasta deste território seguro que poderia facilmente vampirizar outros filmes do gênero.
Embora a intertextualidade seja hilariante e até complicada, como sempre em Stiller, não é necessário compreendê-la para aceitar o discurso do filme. Também não é preciso ficar só por conta dos ferozes e brutais ataques ao sistema de cinema industrial. Desde os astros mencionados até os mais perversos produtores (um Tom Cruise, maquiado e gordo), o filme coloca em evidência a mediocridade, a falta de critério e a vulgaridade de certo tipo de cinema dramático.
''Trovão Tropical'' não é uma sátira sobre Hollywood, daquele tipo que faz com que o espectador zombe das estrelas como se todos os males do mundo (e do cinema) estivessem concentrados nelas. O filme é bem mais denso do que isto: propõe discutir a idéia de que no mundo atual todos nós vivemos através de um imaginário mediático. Que tudo se tornou falso, que já não há experiências reais. O que pensamos, o que comemos, o que vestimos, a forma como agimos, aquilo que cremos importante ou válido, o que conversamos diariamente, tudo passa pelo crivo dos meios de comunicação. É aqui que o filme deixa de lado a escritura mais subjetiva da comédia e tece um discurso inquietante e perturbador.
Apesar de reflexivo, o filme é mesmo muito engraçado, alucinantemente hilário no tráfego entre duas realidades que se fundem num autêntico delírio, mas um delírio inteligente, pensado, tão surpreendente e sincero em intenções como em soluções artísticas.


