Bem-vindo a Shangri-lá, perto do céu
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terça-feira, 21 de setembro de 2004
Aline Cury Zampieri<br> Agência Estado 
Katmandu - As mudanças começam ainda no ar, durante o vôo de chegada. É noite, e a Cordilheira do Himalaia não pode ser vista da janela do pequeno avião da Royal Nepal Airlines, mas o interior da aeronave já nos dá uma pista do que vem pela frente. A tripulação usa roupas muito coloridas e serve a refeição de bordo para alguns muito apimentada. Um ''bolinho de queijo e rosas'' é rejeitado por uns, devorado por outros. A simpatia no serviço transparece e o visitante passa a se sentir cada vez mais à vontade.
Ele começa a perceber que os próximos dias serão de muito entendimento, muita compreensão. É hora de deixar para trás todos os preconceitos e aceitar o diferente. Você acaba de chegar ao distante Reino do Nepal.
Os nepaleses vivem espremidos entre dois dos gigantes econômicos famosos e promissores, a China e a Índia. O Nepal é pequeno. Conta com apenas 147.181 quilômetros quadrados do tamanho do Estado do Ceará. Também é populoso: são cerca de 23 milhões de habitantes falando nepalês e, com frequência, inglês. A infra-estrutura oferecida ao turista é vasta e a vontade do povo de ajudar, imensa. Isso é muito caso se leve em conta o fato de a região ter sido aberta para estrangeiros há pouco tempo, se comparado a outros países. A entrada de turistas só foi permitida por volta de 1950.
O pequeno reino também pode ser chamado de topo do mundo. Seu território abriga 8 dos 14 picos montanhosos mais altos do planeta. É também lá, na fronteira com o Tibete (região anexada pela China), que mora a ''Deusa Mãe da Terra''. Ela se chama Sagarmatha em nepalês e Chomolungma em tibetano. Os dois povos dividem, sim, o privilégio de servirem de janela para o famoso, desejado e temido Monte Everest, cujo pico está exatamente na fronteira. O turista pode até não vê-lo, mas com certeza irá senti-lo guardando aquele povo alegre. Não será mesmo um Deus?
A vasta oferta de desafios faz do Nepal o principal destino dos escaladores mais experientes. Todo ano, milhares de esportistas tiram seus vistos de escalada, pagam as taxas e partem com suas equipes para tentar chegar a lugares onde a sobrevivência do homem é quase um milagre.
Há também os que não se arriscariam a tanto, e preferem ter o prazer de ver o gigante em um passeio turístico de avião. As caminhadas de vários dias que levam a pontos de observação não apenas do Everest também são muito procuradas. Mas o país não é feito apenas de montanhas. Katmandu, a capital, está no vale que leva o seu nome e não vê o Everest, mas inebria com uma profusão de sons, cores e cheiros nunca antes experimentados. Mostra casas com janelas delicadamente entalhadas em madeira, que às vezes revelam e às vezes escondem deusas uma delas viva.
Katmandu mostra a religião, que se derrama pelas ruas e se revela parte indissociável daquele complexo. O Nepal tem 90% de hindus e 10% de budistas. Estes estão localizados sobretudo na fronteira com o Tibete, do qual migraram após a invasão chinesa. A religião também está nos rituais de cremação, nos olhares, nas roupas, no comportamento, nas casas.
A cidade é barulhenta, poluída, mas irresistível. O ocidental que caminha por suas ruas dificilmente consegue entender como se dividem as classes sociais naquele labirinto de ruas estreitas e caóticas.
Os ricos não moram em casas opulentas nem há bairros chiques em Katmandu. O que se vê é um emaranhado de residências pequenas, gastas, que parecem encerrar a sabedoria de milênios.
Nos anos 1960, o Nepal foi muito procurado por hippies em busca de novas experiências ligadas à espiritualidade, mas também dos mitos. Um deles é Shangri-lá. Sim, o paraíso na Terra está neste pequenino país e seu nome em nepalês significa ''passo do Shangri''.
Muitos ficaram curiosos para conhecer a região descrita no filme ''O Horizonte Perdido'', de 1937, do diretor italiano Frank Capra. Nele, um grupo de sobreviventes de um desastre de avião vai parar num reino perfeito, onde não se envelhece, que se revela após uma caminhada em meio a montanhas inóspitas e geladas. O Nepal também tem rios que oferecem boas opções de rafting, praças com palácios antigos, templos e o abominável homem das neves, o Yeti.
Há também as histórias dos soldados gurkhas, que serviram ao exército inglês na 1 Guerra Mundial e são reconhecidos por sua bravura. E, por falar em bravura, não se pode esquecer dos sherpas. Esse simpático povo, que habita a região do Himalaia, já é quase uma lenda. São os heróis das escaladas aos picos mais difíceis.
O surpreendente Reino do Nepal garante muita diversão para quem gosta de desafios, de aventura. E um mundo de descobertas para quem quer algo novo, mesmo que antigo.


