Bem melhor é esperar por Indiana Jones
A data sacramentada é 22 de maio, talvez em pré-lançamento mundial no Festival de Cannes, portanto daqui a quatro meses. A gestação mais aguardada nos últimos anos já tem nome: ''Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal''. A demora de quase 20 anos na reposição de mais um título da saga abriu espaço para produtos como ''A Lenda do Tesouro Perdido'', primeira e segunda parte. O sentimento de orfandade foi tanto desde ''A Última Cruzada'' que o público não esperou e adotou qualquer contrafação apenas para recuperar o gostinho das aventuras charmosas comandadas por Steven Spielberg.
Por isto mesmo esta que aí está em lançamento nacional, subtítulo ''O Livro dos Segredos'' (confira a programação de cinema na página 2), é uma das maiores bilheterias do ano nos EUA. Há duas maneiras de enfrentar o filme: sentar na poltrona, deixar a mente em branco, relaxar e desfrutar o espetáculo pelo espetáculo sem exigir a mínima lógica. Ou, ao contrário, analisar o material e tentar encontrar um sentido - o resultado mais provável é contrair um ataque de nervos.
A história diz respeito à descoberta de uma página perdida do diário de John Wilkes Booths, assassino do presidente Abraham Lincoln. No episódio estaria envolvido o tataravô de Ben Gates (Nicolas Cage), este misto de aventureiro, professor e super-herói. Daí em diante vale tudo, sempre em progressivo processo de decifrar números e códigos e senhas.
Como show pirotécnico ''A Lenda do Tesouro Perdido'' funciona, e às vezes até bem, não fosse produtor o dínamo e atual patrono da ação hollywoodiana, Jerry Bruckheimer, cuja mão se nota muito mais do que a do medíocre diretor Jon Turteltaub. Como filme, no entanto, é o próprio reino do disparate, a começar pelo roteiro suspeito assinado por um coletivo, The Wibberleys, onde interveio mais de meia dúzia de curiosos. Não que os argumentos de Indiana Jones tenham lá muitos pés e cabeças, mas a diferença vital é como as coisas tomam forma na tela, como o texto é escrito e afinal ganha correspondência em imagens, qual o volume de talento empregado para que o espectador embarque na incrível jornada achando tudo muito bom.
É ainda possível suportar o objeto em questão se ele for observado como uma grande, enorme, monumental paródia dos best-sellers de mistérios pseudo-históricos, as infâmias conspiratórias e as maquinações ocultistas que enchem os bolsos de espertalhões que detém hoje a fórmula de seduzir milhões de trouxas planetários.
Piadas sem inspiração, romance frouxo de ocasião, diálogos de pobreza infinita e um Nicolas Cage que aprimora a cada filme sua permanente expressão de lástima, vale dizer, de maior abandonado. Diane Kruger é só uma visão do paraíso, ficando o pesado por conta dos tarimbados Jon Voight e Helen Mirren, esta com certeza em plena folia pré-carnavalesca neste inacreditável samba-enredo.(C.E.L.J.)





