Bem longe do deslumbramento
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
Quem me conhece sabe que não sou de dizer coisas desse gênero sobre ninguém, mas desta vez tenho que afirmar: estou encantado e cheio de admiração por Kate. Depois de Titanic ela poderia escolher o que quisesse, ficar riquíssima. Ao contrário, preferiu ganhar muito menos e se arriscar em projetos mais difíceis como Holy Smoke, de Jane Campion, só para satisfazer suas necessidades humanas e profissionais. Kate deveria ser um símbolo para todos os jovens, e não apenas para os atores. Generosa e espontânea, a declaração do cult e habitualmente ranzinza Harvey Keitel em plena coletiva após a exibição de Holy Smoke no Festival de Veneza pega muitos jornalistas desprevenidos.
Mais: desconcerta, confunde e emociona Kate Winslet, porque o cumprimento parte de alguém que ela confessadamente considera um dos maiores atores em atividade. Aos 23 anos, duas vezes candidata ao Oscar, a apaixonada Rose de Titanic recebeu a Folha2 para uma rápida entrevista a bordo de uma blusa preta rigorosamente básica e uma saia justa com enormes flores laranja em fundo lilás.
Mais deselegante impossível: o glamour ficou no camarote do transatlântico e ela parece saída da águas onde tentou salvar DiCaprio. De repente se descobre que o charme está justamente aí, nesta natural displicência, neste desapego aos cânones estéticos, aos rituais da celebridade planetária. A tendência ao arredondamento das formas parece evidente, e é notável como o corpo pleno deste perfil botticelliano cai bem na garota.
A pele é bela, branca, imaculada. O sorriso sem artifícios. É agradável ficar observando esta serena e simpática inglesa que já foi a atormentada adolescente de Almas Gêmeas e a infeliz Ofélia no colossal Hamlet de Kenneth Branagh.
Depois de Titanic, com certeza você foi assediada por dezenas de ofertas para trabalhar em outras superproduções. Mas surpreendendo a todos, decidiu não aceitar...
Sou uma garota de sorte, muita, muita sorte. Tenho 23 anos, sou casada com o meu amor, não tenho problemas com dinheiro e posso escolher livremente que filmes fazer. Uma verdadeira sorte.
Apenas sorte ou algum outro fator influiu para que você chegasse a esse ponto de sua carreira?
Não, não apenas sorte. Trabalhei para alcançar esta condição. Disse não e disse sim, tive que aprender a distinguir as coisas importantes das inúteis. A minha verdadeira sorte é que, quando tinha quatro, cinco anos, já sabia que um dia seria atriz. Não perdi tempo. Minhas amiguinhas diziam: quero brincar de cabeleireira, quero ser enfermeira...Eu não. Sempre quis ser atriz. Questão de vocação. Cheguei a interpretar a Virgem Maria no presépio vivo da escola.
E com a ajuda de sua família, onde todos são atores...
Certamente. Sou filha da arte. É uma vantagem. Sou filha de atores que amam o que fazem e que jamais enriqueceram na profissão. E esta é outra vantagem. A primeira casa que eles tiveram, inteiramente deles, foi presente meu, ainda que o dinheiro nunca tenha me atraído. Basta ter o suficiente para pagar a conta telefônica.
É por isso que depois de Titanic você escolheu filmes de autor?
Mas Titanic também é um filme de autor! Quem poderia adivinhar que poderia render aquele navio carregado de milhões de dólares?!
Uma revista americana, Movieline , declarou que você é a atriz mais dotada de sua geração...
(muito sem jeito): Ah, aquilo...Foi muito gentil da parte deles!
Você planeja sua carreira?
Não me arrisco. Escolho histórias originais e só. Me lembro de quando vim a Veneza pela primeira vez com Almas Gêmeas, em 96. Apesar do sucesso de crítica, o filme não rendeu praticamente nada. E nos seis meses seguintes tive que me sustentar trabalhando numa padaria. O que eu ganhava dava para meus CDs e para o creme do rosto. As mesmas coisas que compro hoje. Aprendi a lição.
O que a atrai mais num personagem ?
A força. Mulheres fortes na tela não são frequentes. Agora mesmo acabo de encontrar outra. Serei uma jovem lavadeira que vai inspirar o marquês De Sade na terceira idade. O filme se chamará Quills e será dirigido por Philip Kauffman. Mas assuntos de sexo não estão previstos entre o marquês e eu. Ele terá mais de 70 anos, e vai exigir muita maquiagem para Geoffrey Rush.
Leonardo DiCaprio ou Harvey Keitel, como parceiro?
Os dois são grandes como parceiros. Leonardo é um rapaz honesto e talvez por causa da mesma idade conversávamos muito. Mas isto não quer dizer que o meu relacionamento com Harvey tenha sido menos intenso. Holy Smoke é um filme que exigiu muito dos atores, e quando pensava que ia me precipitar num abismo lá estava Harvey, um dos mais completos atores do mundo. Mas o que muita gente não sabe é que o tipo de interpretação de Leonardo é muito parecido ao de Harvey ou de DeNiro, vem de dentro, na melhor tradição do Método.Em entrevista exclusiva à Folha2, a atriz Kate Winslet diz que não liga para fama ou dinheiro e só faz os filmes que lhe dão prazer
ReproduçãoKate Winslet: Sou uma garota de sorte, muita, muita sorteReproduçãoCena do filme Holy Smoke, seu mais recente filme, em que a atriz contracena com Harvey Keitel





