BEM DITO
Hoje vamos falar de estrangeirismos. Sabe o que é isso? É quando usamos uma palavra "emprestada" de outra língua, ou seja, uma palavra estrangeira. Esse é um fenômeno extremamente comum, não só no português, mas na maioria das línguas modernas, e pode acontecer basicamente de duas formas: quando usamos uma palavra estrangeira para substituir um termo de nossa língua (é o que acontece se você diz "ok" em vez de "sim") ou então quando a palavra vem de outro idioma para nomear algo novo, que não tinha nome em português (caso de muitas palavras relacionadas a tecnologia ou internet, por exemplo).
O uso de palavras estrangeiras no português não é, de jeito nenhum, uma novidade. A nossa língua, aliás, surgiu a partir de outra (o latim) e, desde sua origem, vem emprestando palavras. O que variou muito com o tempo foi de onde emprestamos. Até meados do século vinte, éramos grandes fãs do francês (seus pais e avós provavelmente tiveram aulas desse idioma na escola), de onde vieram termos como abajur ou sutiã. Depois da segunda guerra mundial, o inglês americano passou a ser a grande fonte de palavras para o mundo todo, incluindo o Brasil.
Entretanto, quando utilizamos uma palavra estrangeira, temos que verificar se ela não sofreu um "aportuguesamento", ou seja, uma adaptação à nossa ortografia. É o que aconteceu, por exemplo, com os termos citados no parágrafo anterior: abajur é a versão portuguesa de "abat-jour" e sutiã vem de "soutien". A partir do momento em que há essa adaptação, a regra diz que devemos usá-la no lugar da palavra original estrangeira.
É aí que nos deparamos com uma questão cultural: muitas vezes, achamos mais "chique" (que vem do francês "chic") usar o termo na grafia original, mesmo sabendo que há uma adaptação. Acha que estou exagerando? Então vamos ao título da coluna de hoje: quantas marcas você conhece que usam a grafia "xampu" no rótulo? Aposto que nenhuma! Todas as grandes marcas preferem a grafia em inglês "shampoo" e a maioria dos consumidores também. A esse respeito, proponho um pequeno desafio: a próxima vez em que for ao supermercado, pare em frente a qualquer prateleira e observe a quantidade de marcas que usam termos em inglês. Você vai se surpreender!
Aí vem o questionamento natural: se todo mundo usa "shampoo", por que a gramática ainda não aceita esse termo? Na verdade, a inclusão de uma palavra na língua, independente da grafia, vem após muito tempo de uso. Pode ser que, de aqui a algum tempo, "shampoo" passe a constar dos dicionários, mas o fato é que ainda não. Então, se você é dono de uma indústria de cosméticos e vai lançar um novo produto para os cabelos, talvez prefira o termo em inglês, para não perder clientes. Mas é importante notar que em uma redação de vestibular ou concurso, serão descontados pontos pela grafia inadequada.
Nessas horas, seu melhor amigo continua sendo o dicionário. Não custa verificar se aquele jeito de escrever a palavra está correto ou não. Você não precisa, por exemplo, escrever "toicinho defumado", pois o termo "bacon" já consta de nossa língua há muito tempo. E, retomando o que foi dito antes, nas áreas de tecnologia e internet, a maioria dos termos vem do inglês, só que o uso deles na grafia original é coisa brasileira: em Portugal não se usa "mouse", mas "rato".
Só não caia na armadilha de misturar idiomas: a maior cidade dos Estados Unidos é "Nova Iorque". Se você preferir a grafia original, "New York", pode até usar, entre aspas, mas não vá misturar, escrevendo "Nova York".
Esse é um assunto naturalmente extenso, que vamos abordar novamente em outra ocasião. Até lá, consulte o dicionário e, em caso de dúvida, escreva para nós ([email protected]). Até a próxima terça!
Flaviano Lopes - Professor de Português e Espanhol
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