O uso (ou não) da crase é um assunto que tradicionalmente causa muitas dúvidas. Os erros mais comuns são não utilizar a crase quando ela seria obrigatória ou o contrário, colocar o acento indicador em casos onde ela seria proibida.
Primeiramente, é preciso entender que a crase não é simplesmente o acento colocado sobre a letra A ("À"). Este sinal se chama acento grave e funciona como um indicador da ocorrência da crase. Então, não é correto dizer que "você não colocou a crase", mas sim que não colocou o acento.
A crase, na verdade, é a fusão (ou junção) de duas letras em uma. No caso do português, trata-se da juntar duas letras "A". Portanto, a condição para que ocorra crase (e, consequentemente, para a colocação do acento grave) é que existam na frase os dois "As" para serem "juntados". Nós tratamos desses "vários As" na coluna da semana passada.
O caso mais comum é a união da preposição A com o artigo A. Então, a crase será obrigatória quando esses dois elementos também forem. No caso da preposição, ela deverá aparecer quando for exigida por algum termo da oração, como um verbo, um adjetivo, etc. Por exemplo: você vai A algum lugar, é favorável A alguma coisa, entrega algo A alguém, etc. Já o segundo A é um artigo feminino. Portanto, pode ser usado apenas antes de palavras femininas, que admitem o uso do artigo, como, por exemplo, A menina, A minha amiga, A camiseta, etc.
Então, se temos a preposição obrigatória e o artigo também obrigatório, a crase vai ocorrer e o acento grave deverá ser utilizado. Por exemplo: "nós vamos À escola", "entreguei o livro À professora", "sou favorável À proposta", etc. Um teste simples, que funciona na maioria dos casos e serve para confirmar ou não a ocorrência da crase, é substituir a palavra que vem depois por uma masculina. Nesse caso, o artigo utilizado é masculino ("O"), que, juntado à preposição "A", vira "AO". Por exemplo: "vamos AO colégio", "dei o livro AO professor". Se acontecer isso, é certeza que no feminino haverá a crase.
Aliás, aproveitando esse detalhe, se o artigo A é feminino, a crase é automaticamente impossível antes de palavras masculinas, como em "andar A pé ou A cavalo", por exemplo. Também é proibida antes de palavras que, por definição, não admitem o uso de artigo, como verbos, por exemplo. É por isso que não se deve usar crase em "A partir de" ou "documentos A enviar", etc.
A preposição A, quando utilizada, é obrigatória (aliás, como toda preposição), mas o artigo A, muitas vezes, é opcional. Isso faz com que a ocorrência da crase também seja uma escolha de quem está escrevendo. Um exemplo seria o uso da crase antes de nomes próprios, onde o artigo geralmente não é obrigatório. Por exemplo: "dei o dinheiro A (ou À) Maria", assim como no masculino você poderia dizer que deu o dinheiro "A (ou AO) João. Acontece a mesma coisa com possessivos: "pedi algo A ou (À) sua prima".
Finalmente, duas observações importantes:
O acento grave não muda a pronúncia da letra A. É comum no ensino fundamental que alguns professores pronunciem "eu vou AA escola", para destacar a ocorrência da crase para os alunos que estão aprendendo a escrever. Mas, na prática, a pronúncia do A com ou sem acento é a mesma.
Existem outros casos em que a crase pode ser utilizada. Vamos tratar deles na coluna da semana que vem. Enquanto isso, cuidado. Esse é um daqueles temas em que não dá para simplesmente deixar de usar o acento, a fim de não errar. A ausência da crase quando obrigatória é um erro tão grave quanto seu uso quando é proibida.
Teve alguma dúvida? Mande-a por e-mail. Até a próxima terça.

Flaviano Lopes - Professor de Português e Espanhol

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