São Paulo, 16 (AE) - Um frevo: não evoca nada de axé e derivados. "De Salvador" é o título. Abre o novo, terceiro, disco de Belô Velloso, "MaRés". Sai por sua nova gravadora, a PlayArte, que marca chegada ao mercado. Belô é sobrinha de Caetano (o único Veloso da família que assina com um ele só) e de Maria Bethânia. "De Salvador" é um frevo de Ana Flávia e Mabel Velloso. Tem arranjo de cordas e violão de Luís Brasil. É uma beleza. Marca de uma Bahia que, sim, ainda existe.
O primeiro disco de Belô, tendo seu nome como título, deixava o prenúncio de uma boa cantora. O segundo, "Um Segundo", era melhor, mais maduro e coeso. Belô era estrela em ascensão. Mas "MaRés" é quase um mau disco. Ao frevo seguem-se a bela e bem elaborada canção "Do Sertão ao Mar", de Jorge Salomão e Zé Ricardo. A toada "Cantina da Lua", das autoras da primeira faixa. O arranjo de Eduardo Lages pesa um pouco no sentimentalismo. As músicas ainda são boas - daí o "quase um mau disco". E, até aqui, a arte da cantora supera os obstáculos. Mas por pouco.
Mais visão carinhosa de Salvador em "Mar... És" (o título da música tem reticências, o do disco, não). Aí, o disco muda de clima. Fica mais romântico, digamos - com músicas como a canção "Tudo de Mim", destacando a percussão orgânica de Marcelo Costa, a caribenha - ou seria mourisca? Ou seria uma versão light do samba-reggae - "Por te Querer", com pseudometais escritos e tocados, ao teclado, por - horror, horror - Lincoln Olivetti. Horror, horror, outra vez: tão boa cantora, Belô Velloso aceita gravar Mauro Motta, fazedor de sucessos bregas para os mais bregas dos intérpretes daqueles pavorosamente inesquecíveis anos 80.
Mauro Motta assina "O Que Vai Ser de Mim". O que vai ser, Belô? Sandra de Sá faz participação especial. É simbólico. Sandra é uma grande cantora perdida em péssimo repertório. Mestra e discípula. De repente, o disco melhora, em "Corpo Excitado", de Reizinho, marcha do repertório do Ilê Aiyê, bela melodia, bela letra, clima bem realizado. Mas Lincoln Olivetti (achávamos que estávamos livre dele, amargo regresso) volta, desta vez para estragar "Me Ensina", canção de Ana Flávia e de Belô. A mesma dupla assina "Mórbido Amor", um pop que lembra Marina e Zélia Duncan e não é uma nem outra. A letra é boa, forte, mas... Para todos os lados - Atirando para todos os lados, Belô regrava "Hotel das Estrelas", de Jards Macalé e Duda, sucesso de Gal Costa no momento áureo da época do desbunde. O arranjo do bom saxofonista Ricardo tem bons e maus momentos. Bons sopros, boa guitarra. Mas a regravação é plenamente descartável. Por fim, Ana e Belô assinam "Olhar Verde e Rosa", homenagem a Chico Buarque, samba-enredo. Pois é, são talentosas, essas moças. É boa cantora, Belô, boa compositora. Mas, parece, quer agradar aos gregos e troianos. Provavelmente, será olhada de lado por uns e outros. "MarÉs" é um triste equívoco. (M.D.)

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