Os italianos emplacaram apenas um filme na mostra competitiva de Cannes, ‘‘La Balia’’, de Marco Bellocchio, e o filme é bem passável. Situação muito mais confortável do que os franceses, que estão com quatro e apenas um - ‘‘Les Temps Retrouv钒 - mantém alguma chance de premiação. O último cartucho dos anfitriões foi disparado na quinta-feira, e uma vez mais fogos de artifício: ‘‘Nos Vies Hereuses’’, do estreante Jacques Maillot, é um desses filmes de feitura artificialmente naturalista, lotados de personagens jovens cheios de problemas, com pretensões de análise sócio-antropológica. Em resumo: um porre.
No caso de ‘‘La Balia’’ (ama-de-leite), livremente adaptado de uma história de Luigi Pirandello, Bellochio faz uma sóbria meditação sobre maternidade e fragilidade mental. É a história de um médico psiquiatra, Mori, sua mulher Vitória e o recém-nascido de ambos, um menino que recusa o leite materno. Uma ama-de-leite, Annetta, é providenciada, e sua chegada provoca grave crise de identidade na mãe, que acaba se afastando da casa. Apesar da formação clínica, o marido sente-se incapaz de ajudá-la. Enquanto a ama se ocupa maravilhosamente do bebê, que se recupera mais saudável a cada dia, Vitória piora.
Através deste melodrama de época, de feição e acabamento clássicos, Bellocchio revisita os temas psicanalíticos que lhe são caros. O filme, sem causar nenhum sensação ou provocar emoções sensíveis na platéia, é o mais satisfatório do cineasta desde 86, quando sacudiu a Quinzena dos Realizadores com o controvertido ‘‘Les Diable au Corps’’. Aqui menos frio e cerebral, abrindo mão do discurso psiquiátrico que costuma inundar seus filmes de insuportável pedagogia clínica, o cineasta consegue retomar o que recentemente tinha perdido de vista, vale dizer, o canal de comunicação com o público, afinal o único receptor de qualquer manifestação artística. Bons atores em papéis adequados - Fabrizio Bentivoglio e Valeria Bruni Tedeschi, veteranos ao lado da novidade Maya Sansa - e um refinado desenho de produção reforçam o bom conceito atribuído a ‘‘La Balia’’. No entanto, distante da premiação que será divulgada hoje.(C.E.L.J.)
Na cobertura do Festival de Cannes, o jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge tem o apoio da Internet by Sercomtel.

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