Curitiba - Depois de trabalhar com a beleza e as dores que a espicaçam, em ‘‘Dor’’ (1998), a fotógrafa Vilma Slomp realiza nova exposição acompanhada de um novo livro. Ou vice-versa. Hoje, às 18 horas, abre no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, em Curitiba, ‘‘Ilusão’’, reunindo 49 trabalhos. Ao mesmo tempo a artista autografa o livro, todo ele feito com imagens e preto e branco, e alguns traços dourados, evidenciando contornos, sublinhando limites.
Sob o foco de sua lente estende-se um universo de ambivalências, como um convite a um outro olhar, Há sempre algo além da mera aparência, como se a ilusão fosse fina película acomodada ao cenário, qualquer que seja esse cenário. É preciso o rasgo, a fenda, o corte para se esmiuçar aquilo que existe sob as sombras e o desconhecido.
Um texto de Vilma Slomp, que acompanha a última foto do volume e lhe dá o título, diz aquilo que o livro sugere: ‘‘Vida e espírito/ nascem na concepção/ no cordão umbilical/ nasce a ilusão/ realidade pré-histórica’’. E por falar em cordão umbilical, que é a cicatriz visível da transcendência, tem-se uma foto do umbigo de sua mãe, como um símbolo de renovação e finitude.
Algumas flores levam a lembranças de ‘‘Dor’’, embora estejam libertas dos metais que as feriam, mas dando uma concepção de feminilidade, ao mesmo tempo que falsa beleza, oferecendo-se aos olhos sequiosos por aquelas formas, alimentando o desejo do olhar. Até onde o real e o imaginário ali contidos, ninguém sabe, porque na maioria das vezes a intenção está submersa à aparência.
Fissuras na terra, na tela, encontro da vegetação formando um arco (e novamente a idéia de um caminho a ter desvendado outros cenários), detalhes de persianas criando geometrias, flor seca e amassada num caderno em branco, indicando assepsia, como se a vida não tivesse passado por ali, e a flor nada mais é que o arremedo de uma ternura esquecida, um corpo de mulher, um guardanapo com crochê na bainha e um pequeno bordado sugerindo segunda-feira: em tudo o tempo repousado, no limite entre o ser e o não-ser. Enfim, a nossa forma de ver e compreender. Como as árvores margeando o rio, mirando-se no espelho das águas. Um risco em ouro divide o encontro do ser material com aquilo que é apenas um reflexo. No vale das ilusões, a fotógrafa manda um recado no título: ‘‘Estive neste Rio, Debret’’.
Serviço: ‘‘Ilusão’’, exposição fotográfica de Vilma Slomp e lançamento de livro, hoje, às 18 horas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), Rua Desemmbbargador Westphalen, 16, em Curitiba. A temporada prossegue até 16 de maio, com visitação pública de segunda a sexta-feira das 10 às 19 horas, sábados e domingos das 10 às 16 horas. Entrada franca.

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