Beleza e superação nas passarelas
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sexta-feira, 13 de julho de 2018
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local
De uma conversa despretensiosa com a modelo e professora de passarela Edimara Alves no set do filme "Dona Vilma", o roteirista e diretor Artur Ianckievicz Filho vislumbrou uma história boa para ser contada em filme. "Fiquei impressionado com o pouco que ela me contou. Fui atrás de pessoas que a conheciam, de informações em jornais e vi que ali havia uma história muito maior de vida, preconceito e superação", lembra. Anos depois deste primeiro contato, outras conversas vieram, fazendo com que o curta-metragem "Cleo - A Rainha Negra das Passarelas" ganhasse vida na última semana, quando foram gravadas as cenas do projeto. Três delas, inclusive, realizadas na redação da Folha de Londrina, já que uma das personagens é uma repórter que pesquisa a história da modelo. Misturando fatos reais a fictícios, o roteiro do curta narra a história da primeira modelo negra de Londrina, baseado, portanto, na vida e trajetória de Edimara, no auge de seus 59 anos recém completados em julho.
A primeira ideia, conta o diretor, é de que o roteiro fosse para um seriado com doze episódios. Texto este que foi feito antes até do curta. "Edimara tem uma história rica que rende muitos capítulos. No entanto, foram várias tentativas de roteiro até ser aprovado neste formato", diz ele, referindo-se à contemplação de R$ 60 mil do edital de Produção e Distribuição de Obras Audiovisuais, realizado em 2017 pela Seec (Secretaria de Estado da Cultura), em parceria com a Ancine (Agência Nacional de Cinema). Ao todo, o edital destinou no Estado R$ 3,75 milhões para a produção de curtas e longas-metragens, telefilmes de produções de cidade do interior. Londrina foi contemplada com sete projetos, dos quais quatro já foram gravados e estão em processo de montagem. A produção deste curta é feita em parceria com a Produtora Leste. O equipamento utilizado pela primeira vez na cidade foi cedido por empréstimo pelo CTAV (Centro Técnico Audiovisual), sediado no Rio de Janeiro.
O curta-metragem é dividido em três momentos baseados na vida de Edimara Alves: o começo da carreira, como tornou-se modelo e hoje. Numa espécie de flashback, os fatos são narrados por atores que interpretam pessoas reais que passaram pela vida dela. Quem interpreta Cleo (personagem protagonista) na década de 80 - não mais com vinte anos de idade à época - é a atriz Tatiana Oliveira, estudante de Artes Cênicas na UEL (Universidade Estadual de Londrina). "Vamos contar esse período da vida dela em que trabalhava na lanchonete das Lojas Americanas, muito frequentada pelos londrinenses, e já chamava atenção das pessoas pela sua beleza e porte", conta Ianckievicz. Motivada por desconhecidos, porém, insegura quanto ao seu potencial, ela começou a participar de alguns desfiles, ainda que sem qualquer crédito no universo da moda.
A atriz Thainara Pereira é quem interpreta a repórter Tamara que trabalha na redação da Folha de Londrina. Tudo começa no momento em que encontra diversos jornais estampados com a modelo no arquivo e percebe que se trata de uma modelo famosa nas décadas de 80 e 90 que simplesmente desapareceu. "Esse é o ponto de partida para que a jornalista vá atrás de pessoas que a conheceram e trabalharam com ela para tentar localizá-la. Com uma lista telefônica da época, consegue contatos e informações de que a modelo estaria vivendo numa ilha." Essas cenas em questão foram gravadas no arquivo da FOLHA e na Ilha do Sol, na cidade de Primeiro de Maio, respectivamente. Ao longo de 25 minutos, o curta-metragem faz, portanto, um apanhado de episódios de Edimara marcados por persistência, lágrimas, racismo e conquistas. O lançamento do filme está previsto para o segundo semestre de 2019.
Desafio da modelo era enfrentar os preconceitos
Rosto muito conhecido em editoriais de moda da cidade, catálogos de loja, desfiles de marcas conhecidas, a trajetória de Edimara Alves foi sempre marcada por inúmeros obstáculos. Não pelo falta de talento, muito pelo contrário. Mesmo com o corpo esguio e com 1,80 de altura, o desafio era ultrapassar o preconceito por causa de sua pele negra. "Nunca imaginei que daquele encontro tão suave pudesse surgir um filme baseado em minha história", diz ela, lembrando do primeiro contato com o diretor do curta-metragem Artur Ianckievicz. O interesse dele foi imediato e só aumentou quando Edimara emprestou uma pasta lotada de recortes de jornal e fotos da carreira. "Muita gente lembra da época em que aparecia nas colunas sociais e nos suplementos de moda, como a Folha da Sexta. Mas nada foi sequer perto de ser fácil. Somente para entrar no curso de modelo foram três anos de tentativas. Me reprovavam por eu ser negra", declara emocionada.
Se o início foi difícil, os anos seguintes também não foram diferentes. "Por muito tempo eu não gostei de me olhar no espelho e o preconceito só piorava esse sentimento. Mas pessoas surgiram em minha vida, abriram meus horizontes e me fizeram acreditar que eu podia. Hoje, é uma ferida adormecida, pois minha vida toda foi marcada ora pela luz e ora pela sombra", conta, lembrando de Yeda Marques Russo, dona da uma das mais conhecidas e antigas academias da cidade, o Centro de Dança e Artes Adanac, que abriu um curso de modelos por sua causa. Para a formatura do curso, ganhou roupas patrocinadas pelo cirurgião plástico Chafic Kallas. "Eles foram essenciais para que eu começasse a tomar posse de mim mesma." De lá para cá, participou de inúmeros desfiles, foi gerente de loja e tornou-se professora de postura e passarela. Quase três décadas depois, comemora o fato de ter descoberto a força que tem e tenta empoderar outras crianças e adolescentes da periferia em palestras. "Não quero que passem pelo que passei".