São 30 anos que em nada afetaram a obra-prima do aristocrata Luchino Visconti, comunista de sangue azul responsável por alguns dos mais importantes títulos da historia do cinema. ‘‘Morte em Veneza’’ é a obra crepuscular de um mestre, de um esteta que soube como poucos imprimir em celulóide grandezas e misérias do gênero humano. Nobre e marxista, Visconti deixou em sua filmografia as marcas dessa dialética muito particular.
Poderosa, ainda que controvertida adaptação da novela homônima de Thomas Mann, um dos gigantes da literatura do século 20, ‘‘Morte em Veneza’’ transforma o Gustav von Aschenbach de escritor em compositor – Visconti tinha lá suas respeitáveis razões para a liberalidade e as omissões que até hoje arrepiam fieis seguidores de Mann. É a história deste envelhecido maestro, que no ínicio do século passado volta a um hotel de veraneio em Veneza num momento de debilidade física e mental – a saúde e a carreira em crise. Atormentado por temores de que não possa mais sentir emoções, justamente porque as tem evitado ao longo dos anos, Aschenbach passa os dias entre entediado e irritado pela balbúrdia proporcionada pelas família de hóspedes burgueses que lotam o hotel. É quando percebe a presença de belo, angelical adolescente, Tadzio (Bjorn Andresen), que está viajando com a mãe (Silvana Mangano) e irmãs. Gustav torna-se obcecado pelo garoto e o ideal de beleza clássica que ele representa. Apesar dos muitos encontros casuais nas dependências do hotel, o contato mais próximo acaba não ocorrendo, e o compositor, no limite máximo do stress e já contaminado pelo cólera, se limita à contemplação tendo como fundo a cidade decadente, devastada pela doença.
O filme não tem absolutamente nada a ver com ‘‘sexo-tabu’’, pedofilia ou perversões adjacentes. Na verdade, Visconti constrói um minucioso tratado sobre o sentido da perda que chega com a idade e as doenças, e o que isto provoca num homem que ainda anseia pela beleza, mesmo que este anseio possa chegar muito próximo da fronteira do grotesco e do patético – sob o sol escaldante, um atormentado Gustav observa impotente a tintura aplicada a seus cabelos escorrendo pela face.
Amante da grande música, acima até da literatura que tanto prezava, Visconti modelou Gustav à semelhança de um ilustre homônimo, o austríaco Mahler. E para fazer a referência ainda mais notória, generosas e efetivas porções da Terceira e Quinta Sinfonias inundam o filme, às vezes parecendo assombrar os últimos dias da vida do personagem.
Dirk Bogarde, morto ano passado, é um Gustav Aschenbach muito além do mais rigoroso julgamento do espectador. A bela iluminação de Pasqualino de Santis valoriza cada centímetro da direção de arte de Ferdinando Scarfiotti, ambas produzindo o efeito da passagem de tempo idealizado pelo cineasta – não por acaso o mais ambicioso e jamais concretizado projeto de Visconti foi um mergulho em ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’, o mergulho de Proust nos labirintos da memória.

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