Beleza e crueldade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Beleza e crueldade. Uma ao lado da outra. As duas habitando o mesmo tempo. Convivendo no mesmo espaço. O escritor russo Issac Bábel (1894 - 1940) sintetizou, em sua literatura, beleza e crueldade num único ponto. Como se um dos olhos estivesse voltado para o céu e outro voltado para o sangue.
Um olho voltado para a crueldade da guerra, outro voltado para a paisagem onde o sangue escorre. Esse peculiar olhar recheia os contos de Isaac Bábel, principalmente aqueles que compõem ''O Exército de Cavalaria'', sua obra prima.
O volume, publicado pela editora Cosac Naify, é formado por 36 contos que abordam um tema único: o conflito entre o exército russo e o exército polonês. Uma batalha repleta de convulsões sociais e conquistas territoriais sangrentas ocorrida no começo do século 20.
''O Exército de Cavalaria'' tanto pode ser lido como um volume de contos quanto como um romance fragmentado. Isso porque além de o tema ser recorrente, alguns personagens passeiam em vários contos. Até mesmo o narrador se revela, na maioria das vezes, o mesmo ao longo dos textos.
Issac Bábel retrata figuras que fizeram parte da guerra de maneira direta e indireta. Aquelas que ocupam o papel de sujeito da violência e aquelas que ocupam o papel de vítimas.
Como soldado, Issac Bábel esteve na linha de frente do batalhão de cossacos que lutava pela causa bolchevista na guerra entre Rússia e Polônia ocorrida em 1920. Durante os conflitos registrou em seu diário os acontecimentos e situações que presenciou durante as batalhas. A partir dessas anotações posteriormente escreveu os contos de ''O Exército de Cavalaria''. Realizou uma espécie de leitura literária das anotações do diário.
A obra é apontada como um dos primeiros livros onde, de maneira declarada e constante, o autor invade a voz do narrador. O escritor russo eliminou a fronteira que separava autor e narrador. Posteriormente muitos outros autores levaram esse procedimento às últimas consequências.
Issac Emanuilóvitch Bábel nasceu em 1894, em Odessa, numa família judia de comerciantes. Publicou seus primeiros contos em revistas literárias editadas por Górki. Após a Revolução Russa abraçou os ideais bolchevistas e atuou como correspondente de guerra a serviço do exército russo. Com o passar dos anos, insatisfeito com os rumos tomados pelos governantes, passou a ser perseguido. Colocado na geladeira pelos homens de Stalin, seus textos foram retirados de circulação. Foi preso e executado por fuzilamento em 1940 sem nenhum tipo de julgamento.
Publicado originalmente em 1926, ''O Exército de Cavalaria'', ao longo das décadas, recebeu várias traduções brasileiras, todas realizadas do inglês, espanhol, ou francês com o título ''O Exército Vermelho'' - alusão ao nome das tropas militares nascidas durante a Revolução Russa. Uma dessas traduções foi realizada, na década de 50, pelo escritor baiano Jorge Amado.
O volume reeditado pela Cosac Naify é a primeira edição brasileira da obra com tradução realizada diretamente do original russo. Procurando resgatar um título mais próximo daquele criado por Isaac Bábel, ''Konármia'', o livro foi rebatizado com nome de ''O Exército de Cavalaria''. Na língua russa a palavra 'kon' é utilizada para designar 'cavalo' e 'ármia' usada para designar 'exército'.
Colocando beleza e crueldade num único ponto, Bábel revela que fechar um dos olhos é defesa. Uma resistência em ver de maneira mais abrangente. Os olhos na beleza do crepúsculo, os ouvidos nos cantos dos pássaros, o nariz no cheiro de uma garganta cortada.
Campos de papoulas púrpuras florescem à nossa volta, o vento do meio-dia brinca por entre o centeio amarelado, e o virginal trigo sarraceno ergue-se no horizonte como a muralha de um mosteiro longínquo. O palácio Volynia serpenteia. O Volynia afasta-se de nós na bruma perolada das moitas de bétulas, infiltra-se através das colinas floridas e, com seus braços cansados, enreda-se nas touceiras de lúpulo. Um sol alaranjado rola pelo céu como uma cabeça decepada, uma luz suave acende-se nos desfiladeiros das nuvens, e os estandartes do poente ondulam sobre nossa cabeça. O cheiro de sangue de ontem e dos cavalos mortos pinga no frescor da tarde.
(Fragmento do conto A Travessia do Zbrutch, que integra
O Exército da Cavalaria, de Isaac Bábel)
SERVIÇO
O Exército de Cavalaria
Autor - Isaac Bábel
Tradução e apresentação - Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
Posfácio - Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux
Editora - Cosac Naify
Páginas - 256 (capa dura)
Quanto - R$ 66,00


