COMPORTAMENTO ‘BELEZA AMERICANA’ NO DIVà ReproduçãoA personagem Ângela (Mena Suvari) aparece na tela mergulhada em pétalas de rosas: um símbolo recorrente no filme que remete à sensualidade, ao romantismo e também à morteReproduçãoKevin Spacey na pele de Lester Burnham: um típico caso de pai mal resolvidoReproduçãoA sedução é um dos pontos-chave do filme que se abre num leque temáticoArquivo FolhaMarcelo de Castro avisa aos que se identificaram com algum personagem de ‘‘Beleza Americana’’: ‘‘nunca é tarde para recomeçar’’ Francelino França De Londrina A convite da Folha 2, o psicanalista Marcelo de Castro mergulha no inconsciente dos personagens do filme de Sam Mendes para descobrir pontos às vezes obscuros para o espectador Durante uma sessão de 50 minutos, o badalado filme ‘‘Beleza Americana’’ (de Sam Mendes) foi analisado no divã do psicanalista londrinense Marcelo de Castro. Cinema e psicanálise não é uma união estranha para esse profissional. Ele está preparando um livro em que faz a leitura de alguns filmes mergulhando no inconsciente dos personagens. Sem entrar no mérito da análise cinematográfica, de qualidade indiscutível, a leitura de ‘‘Beleza Americana’’ sob as lentes da psicanálise desvenda vários desdobramentos temáticos. O filme é um banquete para fartar qualquer profissional do divã. Na escuridão do inconsciente dos personagens, a lanterna de Marcelo de Castro iluminou alguns pontos, obscuros à primeira leitura. ‘‘Beleza Americana’’ resvala em muitos aspectos na irreversível incapacidade educacional da atual família norte-americana. A decadência familiar está escancarada em dois núcleos: na casa de Lester, Carolyn e Jane (respectivamente Kevin Spacey, Annete Bening e Thora Birch); na família do coronel Fitts (Chris Cooper), o filho traficante e voyeur (Wes Bentley), e a mãe catatônica Bárbara Fitts (Allison Janney). Não se pode esquecer de incluir nesse rol a flutuante teenager Ângela (Mena Suvari). A garota-pop cultiva o típico padrão de beleza americana, encarcerada na obrigatoriedade de seduzir. Esse anjo abandonado, de imagem satânicamente sedutora, se revela virgem, para espanto de todos. ‘‘Nada na vida é pior que ser comum’’, confessou Ângela. Isso, numa sociedade competitiva é realmente devastador. ‘‘O incesto passa subliminarmente na trama o tempo inteiro’’, observa o psicanalista. Um velho tabu da sociedade, garante. Jane, em determinada cena com Ângela, admite o asco ao pensar em transar com o pai. Mas a forma como ela se expressa deixa pairar um lampejo de dúvida. A lanterna de Marcelo de Castro, quando dirigida ao pântano de Lester Burnham, aponta para um típico caso de pai mal resolvido. Aos 42 anos, presume que chutar o pau da barraca vai solucionar seus problemas. Tudo o que circunda os Burnham é falsamente estruturado. O mundo exterior esteticamente perfeito, apodrece interiormente. A vida passa a ser uma mentira no campo familiar e no profissional. Para garantir a manutenção desse engodo, a ética nem sempre é respeitada. O filme sobre a manutenção do sonho americano, em que todos querem seu grito de independência, retrata um triste agrupamento de adolescentes abandonados: Ângela, Ricky e Jane. A negação dos pais sobre o cotidiano dos filhos vem confirmar o abandono dos adolescentes. Ignoram as noitadas, a entrega ao mundo etílico, ao consumo excessivo e repetem no tratamento cotidiano a ausência de diálogo. Ricky prefere vivenciar uma espécie de fenômeno de transferência ao se fechar em seu universo de voyeur-high-tech. Olhar para a própria vida seria insuportável, ele prefere saciar sua fome de vida na casa alheia. No ‘‘lar’’ do severo coronel, a esposa Bárbara se confunde com um vegetal, revelado pelo olhar catatônico. Muitas vezes, balbucia palavras infantilmente. Coronel Fitts se revela ideologicamente suspeito, simpatizante do nazismo e homofóbico. Ele reage contra a homossexualidade latente, na tentativa de ofuscar um medo aterrorizante de se enxergar homossexual. Marcelo de Castro faz uma observação sobre a obsessões dos personagens em suas preferências de caráter destrutivo – armas, drogas, culto ao nazismo, lucro a qualquer preço, busca incansável pela fama – denominadas de pulsões de morte. ‘‘Essas obssessões estão sempre permeando a trama’’, analisa. No vácuo esteticamente bem composto por Sam Mendes, nada parece germinar, nem regenerar. Pontuando o filme, o tom confessional acaba por imprimir uma cumplicidade do espectador com as taras e neuroses apresentadas. Isso acontece quando Lester confessa a tara pela amiga da filha e o pai militar confessa o homossexualismo com um afago e um roçar de lábios em Lester. Completando o elenco de frustrados, a esposa confessa o irresistível adultério. Todos deixam se triturar, pois se encontram num explícito desamparo sentimental. Mesmo separados por um abismo sensorial, eles carregam o mesmo pensamento pulsante: ‘‘somos partes’’. A destrutividade de cada um deixa no último instante a dúvida sobre quem matou Lester. Afinal, todos tinham as suas justificativas, orbitavam entre uma ética neurótica e decrepitude moral. Isso faz com que as máscaras de super-herói e vilão não se encaixem em ninguém. No divã, um discurso recorrente de muitos pacientes reitera o estado de coma em que estão vivendo. Marcelo de Castro comprova que isso é comum nas relações. Lester resolveu sair do coma, como quem passa por um drive-thru, de maneira rápida. ‘‘Ele não quis revisitar seus valores, nem ventilou com a possibilidade de sair do coma através da via introspectiva’’, afirma Castro. ‘‘Beleza Americana’’ se transformou numa fábula da incomunicabilidade humana, repetindo take após take um diálogo de surdos, onde ninguém é ouvido. As rosas, símbolo recorrente na tela, servem para retratar a sensualidade e o romantismo, ‘‘como também para forrar o caixão’’. Lester sai do coma inspirado por uma paixão avassaladora, algo intenso. A filha não corria risco de ser seduzida pelo pai, numa relação incestuosa. Em relação à filha, o psicanalista vê naquele pai um homem mais inclinado para o neurótico do que ao perverso. ‘‘Lester escolheu vias imediatistas de satisfação, se dedicando apenas às dimensões sensoriais da vida. Ele buscou gratificações pelos órgãos do sentido’’, constata. A febre de malhar o corpo é um exemplo disso no campo físico, o sensorial também foi instigado pelo uso da maconha. Numa observação mais atenta, vê-se que Lester busca soluções de fora para dentro e não uma reconstrução para formar valores de dentro para fora. Por isso, o caminho dele dá em morte. Sua máscara mortuária se revela de uma vivacidade cínica assustadora. O pai adormecido, o provedor desempregado, o amante perdedor, o indivíduo petrificado deixa-se afundar na areia movediça ao saltar etapas de elaboração mental. O filme de Sam Mendes pode ser definido como memórias póstumas de um perdedor. Se Lester não tivesse morrido, seria um candidato sério à depressão. Todas as gratificações ao sabor de ‘‘fast-food’’ iriam se esvaziar com o tempo. Marcelo de Castro avisa aos que se identificaram com algum personagem de ‘‘Beleza Americana’’: nunca é tarde para recomeçar. ‘‘Em psicanálise, há pessoas querendo recomeçar aos 20 anos, outras aos 50. O importante é rever porque construiu a vida daquela maneira’’.

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