Amir Labaki
Agência Folha
Com todas as honras, ‘‘Beleza Americana’’, uma sarcástica tragicomédia sobre a dissolução de uma família suburbana, sai na frente na luta pelo Oscar 2000. Foi o único filme a ser indicado nas quatro principais categorias: melhor filme, diretor (Sam Mendes), ator (Kevin Spacey) e atriz (Annette Bening). Sua consagração parece agora natural, mas a tradição de conservadorismo da Academia não o tornava um favorito tão óbvio há alguns meses. ‘‘Beleza Americana’’ satiriza a busca do sucesso a todo preço, trata com humor de adultério e pedofilia e recusa o final feliz caro a Hollywood. É tudo menos um filme careta.
Os demais indicados a melhor filme são tradicionais em forma e, ao menos três deles, ousados em conteúdo. ‘‘O Informante’’, o segundo mais forte indicado, em quatro das principais (filme, diretor, roteiro, ator), ataca o lobby tabagista e a imprensa covarde. ‘‘The Green Mile’’ discute a pena de morte.
Por sua vez, a grande surpresa da lista, ‘‘The Cider House Rules’’, é um corajoso drama em favor da liberdade feminina frente ao aborto. O próprio autor do livro, John Irving, escreveu o roteiro para a direção do sueco Lasse Hallstrom (Minha Vida de Cachorro).
Tudo se passa nos EUA da Segunda Guerra, entre um orfanato e uma cidreira. Um médico especializado em aborto (Michael Caine) prepara um jovem (Tobey Maguire) para sucedê-lo. Ele se rebela, cai na vida, repensa o futuro. É uma produção corajosa com o selo da Miramax. Lançado sem alarde em setembro de 1999 no festival de Veneza, ‘‘The Cider House Rules’’ entrou em cartaz nos EUA no final do ano, com excelente repercussão crítica e boa performance nas bilheterias. Ainda assim, dos cinco principais indicados é o que até aqui menos arrecadou (US$ 22 milhões) e o que mais vai lucrar com a corrida ao Oscar.
A indústria piscou para o cinema popular com a quinta indicação, elegendo ‘‘O Sexto Sentido’’. É um raro reconhecimento para filmes de terror. O thriller espírita de M. Night Shyamalan resgatou o gênero do esquecimento, ainda que apoiado por um roteiro baseado num truque manjado. Com mais de US$ 280 milhões arrecadados, ganha sobretudo prestígio com a lembrança. As omissões mais curiosas da disputa central são de ‘‘Being John Malkovich’’ e ‘‘O Talentoso Ripley’’. Se ‘‘Malkovich’’ concorre a melhor diretor e roteiro original, por que não a melhor filme? A Academia parece ainda alérgica a narrativas anticonvencionais.
Já ‘‘O Talentoso Ripley’’ é o esnobado da vez. Anthony Minghella concorre como roteirista mas não como diretor. Matt Damon ficou de fora em seu primeiro verdadeiro solo como ator. Terá a exagerada concentração de prêmios em ‘‘O Paciente Inglês’’ pesado agora contra Minghella? Sean Penn é a mais inesperada indicação para melhor ator. Em ‘‘Sweet and Lowdown’’, um Woody Allen simpático embora secundário, Penn brilha como um inquieto e genial violonista dos anos 30. O problema é que em nenhum instante Penn sequer procura enganar que sabe o que está tocando. Pouco importa: o ano deve ser mesmo de Denzel Washington, no papel real de um boxeador injustamente condenado por assassinato. Já detentor de um Oscar de coadjuvante, Washington tem tudo para se tornar o segundo ator negro a vencer na categoria principal, herdando a coroa de Sidney Poitier. Nenhuma surpresa na lista de atrizes. Hilary Swank (Karate Kid 3) venceu todos os prêmios da crítica e o Globo de Ouro como a jovem que se faz passar por rapaz em ‘‘Boy’s Don’t Cry’’. Merece o Oscar - e, pensando bem, a competição nem é tão forte assim. Por fim, não deu mesmo para ‘‘Orfeu’’. A lista de filmes estrangeiros reafirma a imprevisibilidade da categoria. Três dos cinco indicados não pareciam ter maiores chances (Caravan, Under the Sun e Solomon e Gaenor). Até 23 de março, viverão seu momento de glória. Mas a festa será mesmo de Pedro Almodóvar.Filme de Sam Mendes concorre a quatro importantes categorias seguido de ‘‘O Informante’’ que aborda um tema mais ousado
France PresseKevin Spacey e Annette Bening concorrem ao prêmio de melhor ator e melhor atriz pelo trabalho em ‘‘Beleza Americana’’, uma tragicomédia que aborda temas tabusFrance PresseDustin Hoffman e o presidente da Academia de Cinema, Robert Rehme, anunciando as indicações ao Oscar

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