Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A bossa nova sempre foi associada quase exclusivamente ao Rio de Janeiro. Mas, quando começou fazer sucesso, o movimento ganhou amplitude e foi bater, nos anos 60, em Belém do Pará. Na região amazônica encontrou terreno fértil, atraindo vários músicos. O pessoal que bebeu da fonte não esqueceu a lição. Seu trabalho está em ‘‘Belém Cheia de Bossa’’, disco independente lançado pela Igara Produções Artísticas com apoio do Programa Semear, da Secretaria de Cultura do estado.
O CD mostra um trabalho variado de gerações diferentes, com participação especial de Leila Pinheiro, Roberto Menescal, Gilson Peranzzetta e Cláudio Nucci. Entre instrumentais como ‘‘Tinhoso’’ (Nego Nelson) e canções como ‘‘Pretexto’’ (Paulinho Cavalléro), a bossa nova paraense revela uma grande tendência ao improviso.
Belém é uma cidade de tradição musical. Do choro às valsas, passando pelo folclore, a cidade apresentava um ambiente propício para a assimilação da batida de João Gilberto e das melodias de Tom Jobim.
Alguns compositores, como Zeca de Campos, foi para o Rio de Janeiro e se enturmou com Baden Powell. A primeira geração da bossa nova paraense se reunia em uma espécie de boate particular de um casal entusiasta. O estilo atravessou décadas revelando autores: nos anos 70 apareceu Guilherme Coutinho. Nos 80, Chico Sena.
O estilo paraense incorporou elementos regionais, inclusive na temática. O instrumental é encorpado, com bastante improviso, desviando um pouco da sutileza original. A maioria dos músicos não se dedicam exclusivamente à bossa nova, e as variações resultantes das influências são perceptíveis. Essas características são revertidas em vantagem pela experiência dos músicos envolvidos. O resultado é uma bossa nova um pouco diferenciada, mas de qualidade.
A primeira faixa, ‘‘Pretexto’’ (Pedrinho Cavalléro/Jorge Andrade), pode pegar os preconceituosos pelo contra-pé. Com uma ginga ressaltada pelos arranjos, a melodia consegue respaldo em uma letra bem resolvida. Vale destacar também o solo de flauta de Humberto Araújo.
‘‘Igual ao que Não Foi’’, parceria de Vital Lima com Hermínio Bello de Carvalho, ganha com o violão solo de Ney Conceição. O lançamento conta com veteranos como Nego Nelson, músico de choro que comparece com duas instrumentais: ‘‘Tinhoso’’ e ‘‘Belém Cheia de Bossa’’.
‘‘O pessoal viajava bastante, trazia discos, se reunia para conversar, e assim começou a surgir uma produção que resultou neste trabalho, que abriga também gerações mais novas. A aceitação tem sido muito legal’’, comenta Pedrinho Cavalléro, compositor, instrumentista e produtor do disco. ‘‘Belém Cheia de Bossa’’ é a oportunidade de conhecer uma turma que vem trabalhando há tempos, e que finalmente começa a ser reconhecida. O CD pode ser encomendado por R$ 15,00 (mais despesas de envio) pelos telefones (91) 263-4526 ou (91) 983-5968.

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